Ney Matogrosso chega a Porto Alegre com o seu novo espetáculo: Atento aos sinais.

Ney Matogrosso é incansável! Pelo menos parece, e bem. Aos 71 anos, dos quais mais de quarenta dedicados à música, ele retorna com espetáculo novo (Ney não lança simplesmente um disco, grava espetáculos em CD e DVD), chamado Atento aos sinais. É autoexplicativo, afinal, Ney sempre foi um intérprete do primeiro escalão. Tem moral de sobra dentro da música popular brasileira, que um dia fora chamada de MPB, e já não existe mais. Mas Ney nunca foi acomodado. Ficar eternamente segurando essa faixa, cansa. Está atento que o (seu) público envelheceu e outro novo surgiu, com outras referências e parâmetros, inclusive do que seria essa tal nova “música popular brasileira”, feita pela e para a geração pós-bossa nova/MPB/tropicalista. Por onde passa o caminho do reinvento para um artista que já experimentou de tudo?

Nesta nova turnê, Ney propõe uma busca do que seria o elo da sua história, do seu chão, e onde esse trajeto o levaria. Propõe o encontro do seu público de sempre com o cara e a menina que descobriram os Secos e Molhados recentemente (a boa música está sempre sendo redescoberta) e perceberam que o Ney, a voz e a cara daquela coisa toda, continua mostrando muito serviço. Atento aos sinais não faz relação somente com um novo cenário musical, também quer dizer “atento a um novo cenário global”, onde a música, a dos outros e a dele, é só mais um elemento na realidade e deve absorver essas transformações.

Logo no início da apresentação temos “Rua da Passagem” – o ser jogado no redemoinho do cotidiano em grupo – composição de Lenine escolhida para abrir o plano. Segue com “Incêndio”, de Pedro Luiz, compositor que há mais de uma década vem colaborando de forma sistemática na carreira de Ney. “Incêndio” é política e mantém o clima de efervescência, com imagens da primavera árabe ao fundo, nos telões. “Vida Louca Vida”, clássico do Lobão, traz o foco de volta para o indivíduo e suas relações com “os outros”. A partir desse ponto, o repertório, ou roteiro, volta a atenção para o sujeito. Paulinho da Viola não deixa margem para qualquer dúvida em relação a sua capacidade de traduzir os mais tristes sentimentos, na poesia mais doce e simples. É dele a composição que transporta o ouvinte a essa outra dinâmica da apresentação, com a música “Roendo as Unhas”.

O clima agora é outro, a roupa também, e trocada no palco, como tinha de ser. “A Ilusão da Casa”, de Vitor Ramil, ganha muita força na interpretação de Ney Matogrosso. A versão original não privilegia uma das mais belas poesias de Ramil, e Ney percebeu isso muito bem. O clima volta a subir com “Two Naira Fifty Kobo” e a ênfase do espetáculo também muda. Agora a pauta é o Brasil. Em tempos de acirramento das lutas indígenas e alguns desdobramentos penosos (mas elucidativos com relação a conduta política dos recentes governos), a composição de Caetano ganha ressignificação, “Isso Não Vai Ficar Assim”, a terceira nesse espetáculo de Itamar Assunção,  versa de forma irônica sobre o fim da visão nacionalista e orgulhosa com que fomos ensinados a enxergar o país, essa cobiçada maravilha natural. Para coroar, ainda dentro do tema colonização, Ney apresenta uma composição do rapper alagoano Vitor Pirralho: “Tupi Fusão” é um dos destaques desse novo show, onde o rap aparece pela primeira vez, um pouco travestido de bolero, na música “Freguês da Meia-Noite”, de Criolo.

Depois de percorrer um caminho poético e musical que propunha pintar um quadro do indivíduo dentro do sistema, Ney volta para o bis com a única canção dos Secos e Molhados presente nessa turnê, “Amor”, do primeiro álbum do grupo que revelou essa persona artística ímpar. A canção aparece no roteiro de forma muito acertada e levando-o de volta para o terreno reservado ao consciente desse observador, que é ele e é o público. E não é a toa que “Astronauta Lírico”, mais uma do Vitor Ramil, é escolhida para dar fim a apresentação. A sua letra é uma espécie de hino de vitória da poesia sobre o concreto.   

Ao final, os cerca de 90 minutos de show se mostram suficientes para provar que a carreira de Ney Matogrosso ainda desperta muito interesse. Seu novo espetáculo conta com uma banda e estrutura de palco bem maior que sua última turnê, e boa parte disso vem do patrocínio inédito na carreira do artista, que agora ganha o apoio do Natura Musical (www.naturamusical.com.br) que aliás  patrocina vários novos artistas desse cenário autoral ao qual Ney está atento e que vem ganhando peso.

Ney mostra que quer dialogar com novo público e como sempre foi um artista pretensioso, quer dar sua parcela de contribuição nesse universo de idéias que sempre fizeram parte da sua obra e compõem seu novo show. Pensa que é mole compor uma lógica tão interessante dentro de um espetáculo de intérprete? Seja debatendo política, o que sempre fez, seja incorporando elementos musicais de uma nova geração em sua identidade, Ney enriquece seu personagem artístico, que está acima do seu espetáculo, que na verdade é o que sustenta o seu espetáculo, explicitado em uma apresentação que traz sempre um conceito por trás. Afinal, para continuar saindo de casa aos 71 anos de idade, não bastam motivações simplórias, isso é para os velhos de espírito.

Por: Angelo Borba

Fotos: Marcelo Liotti/Opus

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1 Comment

  1. João Pedro

    Belo texto, Angelo, atento, lúcido e vigoroso como o próprio espetáculo do grande Ney. As fotos do Marcelo Liotti também estão lindas. Parabéns a ambos!

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