Caetano Veloso traz a Porto Alegre a turnê “Abraçaço”.

A última cobertura que fiz para o Poashow foi da apresentação de Ney Matogrosso. Naquela ocasião, lembro que fiquei mais vez admirado pela disposição, energia e tesão que o setentão tinha apresentado na sua mais recente turnê: Atento aos Sinais. O Caetano é somente um ano mais novo que o Ney, não vem do mesmo cenário, nem da mesma turma e não tem as mesmas referências. Porém, lá no início dos anos 70, cada um, à sua maneira, abraçava o rock n’ roll. Ney com os Secos e Molhados no seu álbum de estreia (1973), Caeteno gravando com baixo, guitarra e batera, o clássico álbum “Transa” (1972).  Apesar das bobagens que se falou sobre a relação de Caetano com o rock, e apesar das bobagens que o próprio já falou a respeito do estilo, o fato é que Caetano tem um dos discos mais emblemáticos e originais da história do rock n’ roll no Brasil. Mas uma coisa é certa: Caetano não é rock n’ roll. Ney era e é muito mais. Caetano é qualquer coisa. E isso é muito bom. Aliás, agora, nesse exato momento, Caetano está rock n’ roll. Sim.

A mais recente turnê do baiano, e que dá nome ao seu novo trabalho, se chama “Abraçaço”. É o terceiro registro seu com a banda Cê, que o acompanha desde 2006, e como já avisou o músico, seu último trabalho com eles. Um trio composto por Pedro Sá (guitarra, baixo, vocais), Ricardo Dias Gomes (baixo, teclado e vocais) e Marcelo Callado (Bateria e percussão), e que imprimiram ao som de Caê, toda a modernice, experimentações e, às vezes, peso e distorção ao seu som. Um formato que Caetano não inventou. Nove entre dez bandas indies se encaixam nesse esquema. Mas Caetano sempre foi versátil, sempre se relacionou bem, e para trazer esse universo para perto de si e, a partir desse movimento, reordená-lo, foi um passo. Um passo calculado, frio e certeiro.

O show contou com 10 das 11 faixas que compõem “Abraçaço”. O novo hit, “A Bossa Nova é Foda”, abriu a apresentação. Dá para perceber que essa foi uma composição que veio para ficar no seu repertório futuro. Foi uma tentativa de criar uma palavra de ordem a respeito do batido tema da bossa nova. Deu certo. Seguiu com “Lindeza”, essa um pouco mais antiga. Depois a tônica retornou ao recente disco, com destaque para “Um Comunista”, que versa, digo, que biografa Carlos Mariguella. Todos sabem sobre as incongruências políticas de Caetano (“se não sabe, procure saber.” Como diria Gilberto Gil), desde seus apoios a Antonio Carlos Magalhães (DEM, antigo PFL), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), passando por Marina Silva (PV, agora REDE) e, por último, Marcelo Freixo (PSOL), então ouvi-lo no show, com uma canção que tem quase nove minutos de duração e é praticamente uma ode ao comunismo, ou ao espírito revolucionário de Mariguella, não deixa de ser muito curioso e até certo ponto inusitado. Digo até certo ponto, porque Caê nunca primou muito pela linearidade. “Triste Bahia”, a preferida de Caetano, do meu disco preferido dele, o tal “Transa” que citei no início, serviu também para mostrar que a banda Cê é dos grandes destaques da apresentação. Sendo eles de uma geração bem diferente da dos músicos que gravaram o álbum, era de se esperar que a canção sofresse uma grande transformação.  Não era para ser melhor que a original. Era para ser diferente. Assim foi, e ficou ótima! “Odeio” foi elucidativa! Uma canção excelente. Na hora do solo, cheio de distorções e sujeiras, Caetano, ao melhor exemplo Rockstar, se joga no chão como se estivesse em transe. Elucidativa? Sim, porque ele se joga de uma maneira tão leve, tão sem riscos para a sua saúde, e fica tão pouquinho tempo deitado, que dá para perceber: Caetano nunca conseguiria ser rock n’ roll. Sorte de todos que ninguém gosta dele por esse motivo.  “Funk Melódico”, uma das mais bacanas do último disco, também ficou demais ao vivo. Talvez por ser uma grande canção, talvez por ser o Caetano cantando funk (estilizado, de branco, de senhor, mas um funk, sim) ou talvez porque Caetano, em alguns momentos, tenta dançar funk. Claro, dança como branco, como senhor… fake. O público adorou, pois foi bastante divertido.

Para a parte final da apresentação, ainda temos músicas do “Abraçaço”, uma delas é a fantástica “O Império da Lei”, mais uma com alto teor político. Apesar das contradições caetânicas, o mesmo sempre manteve uma postura progressiva com relação às questões sociais e políticas. Nessa música o tema é a disputa de terra no Pará, que já fez vítimas e tem casos de repercussão mundial, como o que deu origem a essa canção, o assassinato da missionária Dorothy Stang. O show encerra, antes do bis, com uma daquelas canções que se não te arranca do peito um certo tom de nostalgia, pelo menos te transporta para um dos melhores momento da história da nossa música: “Você não Entende Nada” (há vários anos fora do seu repertório), cantada do início ao fim com o público, agora em pé, foi o gancho para sair do palco em grande estilo e com a certeza do pedido de “quero mais”. Volta com outra nova (Caê tem moral até para isso), a linda “Vinco” e segue com um de seus clássicos mais dançantes, daquelas que não tem como dar errado, “Tieta”. Faz a alegria do público, para depois encerrar de vez com “Outro”, afinal, tudo começou ao som de rock, e seria óbvio demais terminar com algo tão “confirmado” como “Tieta”.

Como dito antes, esta é a última turnê com a banda Cê. Durante esses quase dez anos em que Caetano esteve acompanhado desta banda (nesse ínterim, compôs o último álbum da Gal Costa, o fantástico Recanto, repleto de experimentações ainda mais vanguardistas), mostrou que continua tendo algo a dizer, e que ainda busca formas novas para dizer coisas antigas. Falar sobre questões atuais que não nasceram agora.  Durante esse recente período em que esteve acompanhado destes jovens criadores, Caetano acertou muito mais e de forma muito mais significativa, do que errou em seus eventuais deslizes. Terminada a turnê e essa fase, qual será o próximo passo desse artista que há 40 anos, guardadas as devidas proporções, ainda consegue ser uma das grandes vozes a “orientar o carnaval”?   

Por: Angelo Borba

Fotos: Dono Maciel

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