Rufus Wainwright pela primeira vez em Porto Alegre

Começo esclarecendo: sou quase um fã do Rufus Wainwright. Digo isso e digo “quase”, porque no meu conceito (muito próprio) do que é ser fã, já que não existe um conceito universal, não me enquadro na categoria de “admirador sem restrições”. Mas devo confessar que por alguns artistas esse nível de admiração quase ultrapassa o saudável. Rufus é um deles. Dito isso, pretendo eliminar para o leitor a possibilidade de encontrar no texto, de uma análise de show, total isenção do observador. Sou parcial. Até os erros técnicos da apresentação (e olha que não foram tão poucos) me soaram românticos, cuidadosamente colocados para termos certeza que estávamos diante de um ser humano normal, porém com um pouco mais de talento que a maioria. Não imaginava que o veria ao vivo, mas para minha surpresa foi anunciado que a turnê do seu último álbum, “Out of the game”, passaria por Porto Alegre. Ainda bem que erro a maioria das minhas previsões mais pessimistas.

Nove horas em ponto quando Rufus sobe ao palco do Teatro do Bourbon Country, acompanhado apenas pelo lindíssimo piano de cauda e assistido por uma plateia modesta (300 pessoas pela contagem da Brigada, 600 na minha, de fã, digo, admirador). Abre o show com a densa “The Art Teacher”, do álbum “Want Two”, e logo em seguida, introduzida por uma generosa conversa com o público, explicando a história por trás da próxima canção, “The Maker Makes”, trilha sonora de “O Segredo de Brokeback Mountain”. Resumindo a história, ele confessou que preferia ter sido chamado para fazer par romântico com o Heathe Ledger a ter feito a música para o filme. “The Matine Idol”, do seu primeiro disco, e “Vibrate”, do “Want One”, fecharam a primeira parte do show, ao piano.

Com o violão em mãos, anunciou que faria uma pequena parte do show dedicado ao seu novo trabalho. Começou com “Out of the Game” e seguiu com “Jericho”. Ambas bacaninhas. Nesse último trabalho, Rufus tentou conciliar a sua veia pop, sempre presente em qualquer disco seu, com seu lado mais erudito. O produtor do álbum foi Mark Ronson, famoso por seu trabalho com a Amy Winehouse e Robbie Williams, e que ficou encarregado de dar o acento pop que Rufus desejava. Até tentou, mas o resultado não foi muito relevante, vamos combinar. Rufus não atingiu um público substancialmente maior do que já tinha. Não que o álbum seja ruim, longe disso, mas não é melhor que nenhum trabalho seu (em que essa tentativa de sair das beiradas para abocanhar o mainstram não estava presente).

 Voltando ao piano, um dos trechos mais bonitos do show, começando com “Who Are You New York”, que foi interrompida para que Rufus lembrasse a letra do início. Não rolou muito rápido, mas para sorte dele e de todos, alguém soprou que a palavra esquecida era “corner”. Então, só foi. Do mesmo disco que “Who are…” intitulado “Songs for Lulu” (apelido de sua mãe) também foi tocada “Martha”, feita para sua irmã e um dos momentos mais bonitos da apresentação. Antes de começar “Memphis Skyline”, contou uma história interessante: a música foi composta para Jeff Buckley, com quem Rufus começara uma amizade poucas semanas antes do músico morrer. Rufus contou que tentou uma aproximação de Jeff, mas foi esnobado. Meses depois, no lançamento do seu primeiro disco, Jeff compareceu ao show e engatou uma conversa depois da apresentação. Deram-se muito bem, o que não impediu que Rufus prometesse ao seu novo amigo que faria uma versão ainda melhor que a sua para o clássico “Halelujah”, de Leonard Cohen. Jeff morreu antes de poder comparar as duas. Claro que a canção tema de “Shrek” foi uma das mais aplaudidas da noite.

De volta ao violão, mas dessa vez não com um simples, violão: tratava-se de um violão de gosto duvidoso, comprado no Japão, com a Hello Kitty na caixa e que, ainda por cima, não funcionou, o que acabou deixando Rufus tendo que improvisar um pouco mais do que gostaria enquanto um roadie tentava resolver o problema.  Com seu instrumento customizado tocou “Califórnia”, salva pela imensa vontade com que foi executada. Do disco novo também tivemos “Montauk”, que ficou ótima somente ao piano, seguida de “Zebulon”, que a exemplo de várias outras canções da noite, foi agraciada com uma generosa explicação acerca de sua importância pessoal. No caso de “Zebulon”, dedicada a sua mãe, falecida há cinco anos em virtude de um câncer, o músico conta que Kate MacGarrigle sempre tivera o desejo de conhecer o Brasil, e com a morte se aproximando, trataram de fazer a viagem, que permanece na memória de Rufus como sendo um dos grandes momentos que passara em companhia de sua mãe, falecida pouco tempo depois.

Agradeceu ao Brasil e se despediu ao som de um de seus maiores sucessos (dentro do possível, claro), “Cigarretes and Chocolate milk” mostrou que pode ser muito mais pop que qualquer música do seu último disco, e mesmo assim ter um arranjo e uma sofisticação melódica difícil de ser igualada. Não era ainda o fim de fato. Rapidamente voltou para o bis, com a lindíssima “Poses”, e encerrou de vez com “Foolish Love”. “Vamos terminar essa apresentação com algo mais alegre?” perguntou Rufus, antes de “I Don’t Wanna Hold You and Feel So Helpless…” (eu não quero abraçá-lo e me sentir tão desesperançoso…), “É alegre o suficiente?” ironizou. Não era, mas duvido que alguém tenha saído desta apresentação triste, independente de qual música a encerraria. 

O fato é que seria possível continuar escrevendo muito mais sobre esta apresentação, talvez tempo suficiente para comentar sobre cada música, ou talvez decorrer calorosamente sobre a iluminação durante “Martha”, que permanecerá na minha memória afetiva como um dos momentos mais lindos que já presenciei, mas se fizesse isso, aí sim, seria coisa de fã. Então melhor ficar por aqui.

Por: Ângelo orba

Foto: Aline Knevitz

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