Chris Cornell: Voz, violão e esquisitice.

                Há alguns meses, mais precisamente no dia 19 de Abril, os fãs gaúchos de Rock receberam uma notícia que seria excelente: Chris Cornell, conhecido mundialmente por seu trabalho à frente de Soundgarden, Audioslave e Temple of the Dog, além de sua carreira solo, viria, finalmente, a Porto Alegre para única apresentação no dia 17 de Junho, no Araújo Viana. Seria excelente, não fosse o preço dos ingressos, que variavam entre R$250,00 e R$900,00, o que configurava um novo record para o item “ingresso para show” na capital. Não bastasse isso, o formato também não foi lá do agrado de muita gente: Chris viria acompanhado apenas de seus violões, repetindo o show já conhecido (e contestado) do festival SWU, em 2010. A expectativa era dúbia, alternando entre a alegria de receber Cornell em terras gaúchas e o temor por um possível cancelamento. Somente o patrocínio de um grande grupo de supermercados e a alteração para um local com um terço da capacidade, o Teatro do Bourbon Country, tornaram possível a apresentação, na noite de segunda-feira.

                Pouco antes do início, já com 25 minutos de atraso (um record para o TBC, que causou impaciência nos presentes), uma pessoa da produção vai ao microfone e convida as pessoas a ocuparem os assentos da plateia baixa. Mesmo a após a acomodação das pessoas dos outros setores, não foi possível lotar a parte inferior do Teatro, que ainda apresentava vãos devido à baixa procura por ingressos. Somente após cinco minutos Chris Cornell adentra o palco, acenando, simpático, para a audiência.

                “Boa noite… eu queria dizer que não me importo com os gritos, não me importo com fotos, não me importo com o uso de flash nas fotos… na verdade eu não me importo com nada”, disse Cornell, com um sorriso um pouco embaraçado. De posse do violão, dá início a “Scar on the Sky”. O público, encantado com a presença do ídolo e com o tom minimalista que o vocalista deu à canção, acompanhou atentamente. Ao final, não poderia ser diferente: foi calorosamente ovacionado. Na sequencia, “As Hope and Promise Fade” e “Ground Zero”, deixaram claro que Cornell já não é mais o mesmo, alternando momentos de excelência com falhas vocais constrangedoras. O talento ainda reside ali, mas o peso do tempo também se faz presente.

                O primeiro hit da noite foi “Say Hello 2 Heaven”, do Temple of the Dog (projeto paralelo formado por Chris Cornell e seus amigos do Pearl Jam), que emocionou os presentes. O Temple volta ao repertório logo depois de “Finally Forever”, com a excelente “Call Me a Dog” e “Wooden Jesus”, dois dos pontos altos da apresentação. As conhecidas versões acústicas para hits de outros artistas também figuraram no setlist da noite com “Hotel California”, dos Eagles e “Thank You”, do Led Zeppelin. Os diversos pedidos de Billie Jean, de Michael Jackson, parecem ter sido ouvidos, mas não considerados, pelo vocalista do Soundgarden.

                Outro momento de beleza singular foi a interpretação de “When I’m Down”, onde Chris Cornell foi acompanhado apenas por um backing track em vinil. Atencioso, Cornell explicou ao público que esta canção foi gravada por Natasha Shneider, pianista e tecladista russa que participou das gravações do álbum “Euphoria Morning” e, em 2008, veio a falecer após uma longa batalha contra o câncer. Em respeito a ela e por considerar que esta interpretação era a melhor para “When I’m Down”, Cornell passou a utilizar o backing track para executá-la ao vivo. Foi um momento inusitado e positivamente surpreendente, que destoou do formato “voz e violão”, predominante até ali.

                De seus projetos mais conhecidos do público, apenas o Temple of the Dog foi lembrado na primeira metade do setlist (que contou ainda com o clássico absoluto Hunger Strike). A metade final foi mais generosa: Soundgarden e Audioslave reinaram soberanos com “The Day I Tried to Live”, “Fell on Black Days” e “Black Saturday”, do quarteto de Seattle, e “I Am The Highway”, “Be Yourself” e “Doesn’t Remind Me”, de sua banda formada com os remanescentes do Rage Against the Machine. Após “Wide Awake” e “Blow Up the Outside World” (ao final da qual Cornell fez uso de delay para manter os acordes soando mesmo após o fim da execução), Cornell sai pela direita do palco, deixando para trás apenas seu equipamento.

                E foi assim, sem “Like a Stone”, sem “Black Hole Sun” e sem se despedir dos fãs que pagaram caro para vê-lo, que o artista encerrou sua apresentação para um público bem inferior ao esperado. Não apenas por isso, mas levando em consideração a apresentação vocal e instrumentalmente irregular, pelo repertório muito menos interessante que o apresentado no show do Rio de Janeiro, pelos altos preços dos ingressos, pela estranha comunicação com seu público e pelo baixíssimo quórum, certamente o público de Porto Alegre já tem um sério candidato ao título de show mais estranho do ano. 

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Karina Kohl

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