Lenine traz a Porto Alegre a turnê “The Bridge” acompanhado da Orquestra Martin Fondse

Esta é a quarta apresentação do Lenine que eu cubro para o Poashow. A primeira foi na inauguração deste site, em 2008. Na época Lenine estava divulgando seu então recém lançado “Labiata”, no teatro do Bourbon Country. Um show bem experimental e pesado, refletindo o clima do disco. Em 2009 o compositor participou de um projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que dava ênfase aos nossos mais destacados cronistas contemporâneos da música popular brasileira. Foi um show de voz e violão em que Lenine fez um retrospecto da sua carreira. Pelo caráter intimista da apresentação e por sua singularidade, figura como a apresentação mais bacana que presenciei do pernambucano. Em 2011, pouco antes de lançar seu disco mais conceitual, “Chão”, e se despedindo da banda que o acompanhava há mais de uma década – Pantico Rocha na bateria, JR Tostói na guitarra e produção musical e Guila no baixo – foi umas das últimas apresentações a contar com essa formação e talvez por isso tocaram como nunca, para um bar Opinião lotadíssimo. Ou seja, as suas três últimas passagens por Porto Alegre foram bem distintas entre si. Um elemento em comum: a clara busca de um artista extremamente inquieto, ávido por trilhar caminhos que fujam do óbvio. Nesta quarta passagem não poderia ser diferente.
A recente turnê de Lenine se chama “The Bridge” (A Ponte), e não é somente por causa da sua composição que leva o mesmo nome. O compositor está elegantemente acompanhado da “Martin Fondse Orquestra”, capitaneada pelo maestro Martin Fondse, um holandês (mesma ascendência de Lenine) que em suas viagens musicais acabou encontrando com Lenine no Rio de Janeiro. Depois de muita conversa e a descoberta de vários interesses em comum, decidiram preparar uma ambiciosa apresentação para comemorar os 30 anos da carreira deste incrível compositor. Os pontos em comum entre Brasil e Holanda; entre a música brasileira desatada de estereótipos, e por isso universal, que dialoga com a orquestra de Martin Fondse, fundamentada no jazz, é a ponte que une e dá nome à comemoração.
O teatro Araújo Viana recebeu um bom público. Aquém da ocasião, mas ainda um bom número. O show começa com “A Ponte” e de cara já deu para se ter uma ideia do que promete a apresentação. A orquestra de Martin Fondse, nos moldes das Big Bands de jazz, mas um pouco mais enxuta, é possuidora de uma qualidade técnica notória e o fato de serem uma banda aberta a improvisos possibilita a criação de momentos brilhantes, como em “A Rede”, onde o violinista solo foi pego de surpresa tendo que improvisar um extenso solo no final da canção. O resultado acabou sendo ótimo! O público aplaudiu de pé.
A grande maioria das canções teve seu arranjo original bem modificado. Era nítido o prazer com que a orquestra tocava cada composição de Lenine. Sendo suas harmonias e ritmos extremamente ricos, o material que a banda tinha era mais do que suficiente para excelentes arranjos.  “Relampiano” foi um desses casos, recebendo uma introdução fabulosa, onde a orquestra simulava com sons orgânicos o caos da cidade descrita na letra. Outra que ficou excelente foi “O silêncio das estrelas”, que também carrega na letra um aspecto fundamental. Em alguns momentos parece ser a partir desse mote que a banda toda concentra seu potencial criativo, elaborando arranjos que não somente soem bonitos e pomposos, como normalmente acontece nos encontros entre a música popular e erudita, mas que consigam reforçar a dramaticidade das canções. Nesse sentido, podemos dizer que a grande maioria das músicas apresentadas alcançou este propósito. Somente quando era o aspecto rítmico o preponderante, é que podemos dizer que a banda não tinha tanto domínio dos ritmos brasileiros, deixando por vezes algumas composições sem muito gingado, como aconteceu em “Leão do Norte”.
Ao final da apresentação, com toda a plateia devidamente em pé e rendida, tivemos o clássico já esperado, “Jack Soul Brasileiro”. Por mais que essa seja uma das músicas mais batidas de Lenine, junto com “Paciência”, é inegável o apelo que esta composição tem para o corpo e para os ouvidos, e para ouvintes de qualquer nacionalidade. A orquestra, mais uma vez, exibia um imenso sorriso vendo a galera toda dançando.  
Achei que veria um espetáculo suntuoso. Acabei me deparando com uma apresentação extremamente livre. A arte, e principalmente o respeito e admiração dedicado as composições de Lenine por parte da orquestra, se impuseram ao espetáculo e à formalidade. Foi um grande encontro, possibilitado por uma das maiores e mais maravilhosas pontes do universo: a música.
 


 

 

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