El Mapa de Todos: três dias de integração musical em Porto Alegre.

Palco Cidade Baixa em Alta – 26 de Novembro – Terça-feira:

Ian Ramil

Pontualmente às 21h sobe ao palco a primeira atração do festival: sob os olhos de muitos amigos e alguns curiosos Ian Ramil (filho do cantor e compositor Ian Ramil) dá o pontapé inicial ao festival. Quem esperava um flerte com o trabalho de seu pai (ou mesmo de seus tios), acabou surpreendido: a interessante mistura de Ian Ramil leva o público pelos caminhos do folk, do Rock, do experimentalismo e da música brasileira, sempre em doses bem calculadas. Ian e a competente banda que o acompanha cumpriram bem a responsabilidade de abrir os trabalhos do El Mapa de Todos 2013. Destaque para a ótima “Zero e Um”.

Las Acevedo

Na sequência, após breve adaptação no palco, o duo dominicano “Las Acevedo” entra em cena. As irmãs gêmeas Cristabel Acevedo (voz e violão) e Anabel Acevedo (voz e percussão) apresentaram seu repertório autoral de roupagem totalmente minimalista. Visivelmente encantadas com a receptividade do público (já um pouco maior do que no show anterior) iniciam a apresentação com a belíssima “Flores”, que abre seu mais recente trabalho “Fiesta en la Vitrola”. A partir dali, as meninas foram só sorrisos. Canções dos trabalhos anteriores (“Home Made Cookies” e “The Weather Smells Like Oranges”) fizerem um show que agradou à maioria dos presentes e provou que na República Dominicana também se faz boa música.

Acústicos e Valvulados

Uma das bandas que fizeram a história do Rock Gaúcho na década de 90, Acústicos e Valvulados, seu segmento à noite pouco depois das 23h. Com um repertório bastante baseado em seus dois trabalhos de maior sucesso comercial (os álbuns homônimos de 1999 e 2001), a banda embalou o público com sucessos como “Até a Hora de Parar”, “O Dia D é Hoje” e “Remédio”. A banda que mais cresce no Rock Gaúcho (inicialmente eram quatro, e hoje são seis no palco) fez um show competente, capitaneado pelo carismático vocalista Rafael Malenotti e pelo guitarrista Alexandre Móica, que, além de seus dotes guitarrísticos similares, chamou a atenção pela performance e pelo figurino bastante similar ao de um de seus grandes ídolos, Keith Richards.

Max Capote

Dono do penúltimo show da primeira noite, o uruguaio Max Capote subiu ao palco cheio de presença. Munido de um copo de cerveja e uma confiança inabalável, abriu os trabalhos com uma versão em espanhol para “Route 66”, de Bobby Troup, uma das canções mais regravadas da história do Rock. A partir dali, o que se pode apreciar foi uma imensa miscelânea de estilos: Blues, bolero, indie rock e punk, sempre alinhavados por um viés rock and roll e uma performance insana do cantor uruguaio, que bebeu, berrou, caminhou por entre o público e chegou, até mesmo, a cantar de cima do parapeito que separa os dois níveis da pista em frente ao palco. Louco, talentoso e singular, Max Capote fez aquele que é sério candidato ao título de melhor show do festival. Destaque para o ótimo repertório do mais recente álbum, “Chicle” e a excelente versão de “Ana”, da banda peruana Los Saicos, considerada por muitos os verdadeiros criadores do Punk Rock.

Comunidade Nin-Jitsu

Valendo-se da mesma estratégia de seus contemporâneos do Acústicos e Valvulados, a Comunidade Nin-Jitsu, que recentemente gravou DVD ao vivo no Opinião, levou ao palco do El Mapa de Todos um repertório de sucessos. Mano Changes (vocal), Gibão Bertolucci (bateria), Nando Endres (baixo) e Fredi Endres (guitarra) mandaram ver no palco com um convidado especial: Erick Endres, filho de Fredi, mandando ainda mais peso nas guitarras. O público de pouco mais de 300 pessoas na pista do Opinião fez a festa com sucessos como “Cowboy”, “Merda de Bar” e o mega-hit “Detetive”. Nesta, o emblemático Índio (amigo da banda de longa data e figura clássica do vídeo clip que levou o VMB de melhor Demo Clip em 1995) marcou presença no palco. A partir dali, o funk tomou conta, levando 12 meninas da pista para o palco. Formou-se a chalaça que encerrou a primeira noite do El Mapa de Todos, edição 2013.

Palco Opinião 30 Anos – 27 de Novembro – Quarta-feira:

Por incompatibilidade de agenda não foi possível comparecer aos shows de Esperando Rei Zula, Ruido/MM, Frida e Republica de Las Munecas. Quando chegamos à casa, o palco já estava sendo preparado para a atração principal daquela noite, os uruguaios do La Vela Puerca. O que se percebeu, ao conversar com algumas pessoas entre o público foi a ansiedade pelo show dos headliners e rasgados elogios ao show dos gaúchos da Frida.

La Vela Puerca

Com o maior público de todo o festival, cerca de 700 pessoas, o octeto uruguaio La Vela Puerca subiu ao palco do Opinião. Do início (com “Sobre la Sien”) ao encerramento (com Llenos de Magia) a banda arrancou de seu público o típico fervor portenho. Cada canção foi cantada de forma explosiva e passional pelos fãs da banda. Com som e luz impecáveis, os uruguaios proporcionaram um dos melhores shows do festival. Mesmo com, por vezes, quatro guitarras no palco, tudo era perfeitamente audível. A relação de cumplicidade entre banda e público ficou ainda clara nos sucessos que compuseram o bis: Sob o estrondo do coro entoado “bravo / bravo la vela / bravo la vela de mi corazõn” a banda retorna ao palco para “Vuelan Palos”, que levou o público ao que parecia impossível: um estágio de êxtase ainda maior. "Por la ciudad", "El viejo" e "El profeta" encerraram o show épico da maior banda uruguaia da atualidade, deixando todos na expectativa de um retorno o mais breve possível.

Palco Victor Jara – 28 de Novembro – Quinta-feira:

A terceira e derradeira noite do festival El Mapa de Todos foi a mais heterogênea tanto em sonoridade quanto em se tratando do público. Pessoas de todas as idades e bandas com identidades bastante singulares fizeram a noite de quinta-feira uma das mais especiais da história do El Mapa.

O Curinga

                A banda gaúcha de rock O Curinga recebeu a missão de abrir aquela que seria a mais eclética das noites da edição2013. Sem soar pretenciosa, a banda cumpriu bem a missão de esquentar os motores na noite de quinta. Com arranjos interessantes e bem elaborados (contando, inclusive, com a participação de uma violinista, o que deu um toque especial à sonoridade dos caras), a banda mostrou a que veio, justificando o convite. Infelizmente, poucas testemunhas puderam apreciar o show do quinteto.

Finlândia

                O duo Finândia, formado pelo brasileiro Raphael Evangelista (violoncelo / voz) e pelo argentino Mauricio Candussi (acordeão / piano / programações / voz) apresentou sua sonoridade vanguardista e nada convencional no palco do Opinião pouco antes das 22h. Convidados por Fernando Rosa após uma excelente apresentação no festival Contrapedal, Raphael e Maurício conquistaram aquela parte do público que compreendeu a proposta musical do Finlândia. Infelizmente, tanta sofisticação não é para todos: houve quem deixasse brevemente as dependências da casa. Quem ficou, no entanto, teve a oportunidade (talvez única) de conferir um trabalho interessante e singular.

Esteban Copete y Su Quinteto Pacífico

                Os ritmos latinos voltaram a tomar as rédeas do festival com o show do colombiano Esteban Copete e seu “Quinteto Pacífico” (que, na verdade, eram quatro). Muita percussão e música “para bailar” esquentaram a última noite do El Mapa, fazendo com que o público na pista dançasse embalado pelo som dos colombianos.

Los Mentas

                Banda de sonoridade bastante singular, definida por Fernando Rosa, o Senhor F, como “Rockabilly Doidão”, o quarteto venezuelano, ou melhor, a unidade educacional Los Mentas retornou ao El Mapa de Todos após um show memorável na edição de 2011. Promovendo a turnê de 15 anos da banda, os caras fizeram o show mais divertido e incendiário do festival.

Ultramen

                Anunciado pelo radialista Luciano Potter como “a maior usina sonora da história do universo”, os gaúchos da Ultramen fizeram um show memorável, com duas horas de duração. Apesar do encontro com um público bem menos numeroso do que o da última vez em que foram atração no mesmo palco, a banda não deixou por menos e fez um show ainda melhor. No repertório, não faltaram clássicos. “Tubarãozinho” abriu o show, levantando o público já à 1h25 da manhã de sexta. A partir dali, a massa sonora da Ultramen patrolou o Opinião. A partir dali, uma avalanche de hits: “Peleia”, “Dívida”, “Bico de Luz” e “Preserve” foram apenas alguns dos hinos que botaram a casa abaixo. O encerramento épico de mais uma excelente edição do El Mapa de Todos em Porto Alegre.

                Durante todo o festival, a tônica foi a mesma: mistura de estilos, integração, música de qualidade e ouvidos abertos ao que é novo. Nas três noites também foram diversos os agradecimentos e homenagens a Fernando Rosa, o Senhor F, herói do underground e mentor intelectual do festival. De suma importância cultural, política e social, o festival El Mapa de Todos é um verdadeiro oásis para quem está disposto a apreciar a boa música que, por um motivo ou por outro, está à margem do circuito comercial. Por vias usuais, seria muito difícil assistir à maioria destes shows. Seria inviável. Porém, com o trabalho desta equipe e com o apoio dos patrocinadores, a cada ano Porto Alegre recebe um excelente presente.

                Que venham mais e mais edições do El Mapa de Todos, um dos melhores festivais do Brasil. 

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Fabiana Menine / Doni Maciel

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