Guns n’ Roses: Inconstante e intenso.

   Noite de quinta-feira em Porto Alegre e a cidade se prepara para receber aquele que é, sem duvida alguma, o maior show internacional de 2014: Guns n’ Roses, um dos maiores nomes da história do Rock, retorna à capital gaúcha depois de quatro anos. Em 2010, a banda se apresentou no mesmo local, porém no estacionamento, localizado na parte externa dos pavilhões. Porém, desta vez, o público que se interessou pela nova oportunidade de ver Axl Rose e sua banda foi bem mais modesto: apenas 12 mil pessoas. A abertura ficou por conta da Gunport, ótima banda porto-alegrense que já havia dado as caras na abertura do show de Ozzy Osbourne, em 2011. Com um show baseado em composições próprias, todas em inglês, a banda agradou o público, que respeitosamente dispensou a atenção que a banda merece. Fortemente aplaudidos, mostraram-se prontos para desafios ainda maiores, pois não se intimidaram e deram seu recado. Não fosse a certeza de que haveria atraso da atração principal, poder-se-ia fazer a observação de que o show fora um pouco longo, mas, dentro daquele contexto, a escolha de um repertório de cerca de 40 minutos foi adequada. Para o encerramento, uma interessante versão para “From Out of Nowhere”, do Faith No More. Já eram 21h10 quando a Gunport deixou o palco para, só então, o público começar a clamar pelo Guns. 
    Apesar do atraso histórico de quatro horas em 2010, o Guns n’ Roses, famoso por não ser muito pontual na hora de subir ao palco, vem modificando este hábito. Em Belo Horizonte e Curitiba não houve atrasos e em Florianópolis, na noite anterior, foram apenas 60 minutos. Em Porto Alegre, o relógio marcava 22h18 quando as luzes se apagaram para a introdução instrumental. De trás da bateria surge o icônico guitarrista D.J. Ashba, para a execução do poderoso riff de “Chinese Democracy”. O êxtase do público, instantâneo, foi multiplicado com a entrada de Axl no palco. Os pavilhões da FIERGS explodiram em gritos e aplausos para a figura mais aguardada da noite. Na sequência, o primeiro hit: as primeiras notas do riff de introdução de “Welcome to the Jungle” arrancou uma reação ainda mais estrondosa do público gaúcho. A partir dali, a banda empilhou hits, entregando ao público o que ele mais esperava: as canções que fizeram do Guns n´ Roses uma das maiores bandas não apenas de sua época, mas da história da música moderna. 
    Se em 2010 Axl Rose, que já vinha de um histórico recente de performances no mínimo questionáveis, acabou por surpreender positivamente o público porto-alegrense, desta vez o que se pode ouvir não foi tão agradável: extremamente inconstante, Axl seguiu a linha de alguns de seus contemporâneos (como Chris Cornell e Sebastian Bach, para citar alguns exemplos) e alternou momentos de puro brilhantismo com outros inevitavelmente constrangedores: Os gritos que são parte da identidade da banda vieram com tudo em “Live and Let Die” e “Estranged”, além da já citada “Welcome to the Jungle”, ao mesmo tempo em que Axl não teve voz mesmo para os trechos menos desafiadores de “Mr. Brownstone” e “You Could be Mine”. A montanha russa vocal ficou evidente, mas o público não pareceu se importar: a grandiosidade das canções e a emoção com a presença de Axl ali, tão perto, foi mais forte que qualquer deficiência técnica. 
    A personalidade difícil de Axl também deu as caras: em “Better”, Axl simplesmente aborta a execução: “Stop, stop, stop!”, esbravejou o vocalista, nada satisfeito: “Tudo o que eu ouço no meu ear* é ‘ooooohhhhh’. Eu gostaria de ouvir a música. Vamos tentar de novo e você faz melhor, ok?”, reclamou, dirigindo-se ao responsável pelos retornos. Voltando-se ao público, ele se desculpa (“Desculpem por isso, ok?”) e retoma a canção do início. Um momento que seria estranho caso estivéssemos falando de outro vocalista.
    A apresentação, a exemplo do que vem acontecendo em todos os shows da turnê sul-americana, foi permeada por trechos instrumentais (sejam eles solos ou jams) e covers. Entre eles, é importante destacar as versões instrumentais para “Baby I’m Gonna Leave You”, do Led Zeppelin e “Tema da Vitória”, aquele mesmo, das vitórias brasileiras na Fórmula 1, executado com maestria por Bumblefoot, além de “Nice Boys”, do Rose Tattoo e “Holydays in the Sun”, do Sex Pistols, esta cantada pelo baixista Tommy Stinson. Se considerarmos a introdução instrumental e as emblemáticas “Knockin’ on the Heaven’s Door” e “Live and Let Die” (covers, sim, porém daqueles que um artista se apropria em definitivo) foram nada menos que oito intermissões instrumentais e seis covers, o que caracteriza um pouco de exagero, algo desnecessário para uma banda do porte do Guns n’ Roses.
    Mesmo sendo ignorados pelos fãs mais radicais, não tem jeito: os momentos de maior reação por parte do público foram os grandes hits radiofônicos: não é preciso ter a imaginação muito fértil para desenhar mentalmente o que foi a reação às primeiras notas de “Sweet Child O’mine” ou ao assovio que introduz “Patience”. Por fim, para encerrar o show de quase três horas, a banda optou pelo gol certo: “Paradise City” lavou a alma de mais de 12 mil pessoas na já madrugada de sexta-feira.  
    Cheio de altos e baixos, não apenas no que se refere a seu vocalista (a banda por vezes se desencontrou e os solos outrora executados por Slash deixaram um pouco a desejar, apesar do alto nível de seus guitarristas) o show do Guns n’ Roses é, hoje, muito mais uma celebração ao que o Guns foi do que um show de uma banda presente e atuante. No entanto, essa espécie de “tributo a si mesmo” ainda empolga, emociona e leva milhares de fãs ao redor do mundo a terem noites inesquecíveis. Não importa se Axl ainda apresenta no palco um duelo entre o talento e os efeitos do tempo e dos excessos, e nem tampouco o fato de, ao longo do show, ambos vencerem várias vezes. Afinal, quando se tem o nome gravado entre os maiores da história do Rock, não há falha que possa apagar. 

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