O grave suave de Paula Fernandes

Quarta-feira, 21h, teatro do Sesi. Foi lá, em noite agradável, temperatura amena, que um grande público foi prestigiar a cantora Paula Fernandes. Um show revestido de espetáculo e repartido em atos. Então, vamos por partes. 


PÚBLICO

Com capacidade para pouco mais de 1.500 pessoas, o teatro do Sesi esteve com lotação plena. Um público de todas as idades compareceu ao local, de crianças a idosos. Na verdade só não havia crianças de colo, de resto, todos estavam representados. E eles chegaram cedo. Antes mesmo do início, às 21h00min, uma longa fila se formava no hall de entrada do prédio. Entretanto, quando acomodados no belo teatro da zona norte, o público assumiu sua condição de plateia. 

Em coro, capela, gritos, enfim, como puderam, eles se aliaram à cantora. Cantaram junto durante todo o espetáculo. Em alguns momentos, a emoção de estar perto do ídolo fez com que fossem extrapolados alguns limites.  Tina, uma jovem aparentando seus 13 anos, por exemplo, desvencilhou-se das garras do staff e no galope conseguiu subir ao palco para tirar uma self com Paula Fernandes que, elegantemente, parou o show e retribuiu o carinho. 

Aliás, a cantora de Sete Lagoas, região Metropolitana de BH, mostrou grande habilidade na comunicação com os presentes.  E eles estavam entusiasmados. Traziam consigo bichos de pelúcia, cartazes, girassóis de plástico, recortes de papel, inclusive, entre as músicas “sem você” e “se liga”, três espectadores, dois jovens e uma senhorita, tiveram a honra de dançar com Paula Fernandes no palco e, também, de interpretar girassóis à jardineira. 

O carisma natural da cantora gera uma empatia instantânea do público. Em suma, neste quesito, nota dez. 

 

CENÁRIO E TECNOLOGIA  


Não há muito a dizer além de parabéns. Uma bela combinação de imagens projetadas em um telão central, e outro retangular, na “barra” do palco, com encenações e trocas de figurino. Na esfera teatral de um leigo, digamos que o show teve sete atos.  
   
Paula Fernandes começou sua apresentação às 21h10min. Acompanhada de um violão, apareceu no palco do Sesi içada por uma rampinha. Usando vestido longo, claro, mais parecia uma prenda do futuro, pelo menos, nas vestimentas.  De qualquer maneira, aclamada pela plateia, desde o início, ela começou cantando “se o coração viajar” e “navegar em mim”.  Concomitantemente, imagens submersas da cantora apareciam no telão, complementando o cenário.   

No segundo ato, Paula se desfez do longo e, com vestido curto e brilhante, foi caminhar na esteira.  Depois, interpretou “não fui eu” antes de conversar com os gaúchos pela primeira vez.  Aparentemente tranquila, realizada, quiçá, pela autonomia do espetáculo, já que dirige e assina, a mineira agradeceu a presença de todos, mencionou a Hits Entretenimento e a Jeito de Mato, realizadoras e produtoras do evento, e terminou a rápida fala convidando o público a curtir: “espero que se divirtam…”. 

A próxima música foi “quem é”, do álbum mais recente, denominado Um ser amor. Na melodia, vale destacar a atuação do guitarrista, Márcio Monteiro, que dedilhou acordes nervosos em sua guitarra caipira.  Entretanto, no terceiro ato, o clima muda completamente. Após breve prefácio no telão, onde Paula aparece, criança, cantando à mãe, em imagens de arquivo, o cenário vai ganhando ares de fazenda. Então, de óculos, camisetão, pantufa, arrastando um urso de pelúcia pelo chão, ela retorna da coxia e vai até o centro do palco. Dessa forma, sentada no piso, interpreta a canção “coração na contramão”, com participação virtual de Zezé di Camargo e Luciano. Diante deste ambiente caseiro, é como se a cantora quisesse transportar o público ao seu universo mais particular.  

Assim, em seguida, no quarto ato, o campo dá lugar a uma cidade do interior.  Ademais, um banco de madeira é introduzido no cenário. Então, usando um vestido bordado amarelo, após nova troca de figurino, Paula canta “mistérios do tempo”, “sem você”, “amanheceu, peguei a viola”, de Renato Teixeira, e “se liga”. Enquanto isso, no telão, um arraial virtual ganha forma no decorrer da apresentação. 

Com isso, de lambuja, “mineirinha ferveu”, “nóis enverga mais não quebra” e “debaixo do cacho” encerram o ato que, aparentemente, parece ser aquele em que a cantora fica mais à vontade. Com desenvoltura, ela baila, pula, rodopia, enfim, demonstra certa felicidade genuína.  Doravante, quando ela sai do palco, para outra mudança de roupa, a banda, composta por sete músicos (Ricardinho, no teclado, Fernando, no banjo e sintetizador, André Porto, na guitarra, os Márcios, Bianchi, na bateria, Sacramento, no baixo, e Monteiro, na guitarra, além de um sanfoneiro invocado, cujo nome infelizmente não captei ) preenche a lacuna tocando um instrumental de “isso aqui tá bom demais”, de Dominguinhos. 

Contudo, no quinto ato, outra reviravolta. Em imagens, o arraial cede espaço ao místico e “pássaro de fogo” vira a senha perfeita para o canto à capela. A sintonia entre plateia e artista é nítida e, na sequência do show, duas esculturas de gesso, mãos em formato de S2 coraçãozinho, agregam outro elemento à arte do espetáculo.  Talvez aí haja um pioneirismo na representação estética. 

Todavia, na continuação cênica, a mineira fez do coração seu balanço e convidou o público a cantar “um ser amor”, “não precisa” e “eu sem você”. Nesta última, especialmente, uma lua cheia invade o cenário através do telão e ilumina a estrela que nos visita. Em seguida, no sexto ato que, também, leva ao sétimo, o breu toma conta do teatro. A artista veste trajes semelhantes aos dos monges tibetanos para interpretar “nunca mais eu e você”.  Aliás, sonoramente, esta música merece um destaque especial. Todavia, na canção, um truque de luz traz uma impressão que, no final….

Portanto, a partir daí, a jovem romântica abre alas à mulher poderosa. Paula desponta num vestido luxuoso, prata, que é ouro, e interpreta um medley de canções em inglês, incluindo “long live”, com Taylor Swift que, neste momento, aparece interagindo com ela no telão. Em suma, terminando a apresentação, no dia em que Felipão convocou seus escolhidos à Copa, a cantora mineira, de 29 anos, ainda teve tempo para fazer uma piada com o “Foyer”. 

Antes de despedir-se, no entanto, Paula Fernandes cumprimentou o público, agradeceu a presença, e cantou “diga”, versão dela para uma música do colombiano Juanes, e “eu quero ser pra você”. 

 


PAULA FERNANDES 


Falando em idealização, direção, produção, concepção, enfim, questões estéticas e técnicas, ela mostrou um lado até então desconhecido. A comunicação visual e a utilização dos elementos tecnológicos, e cenográficos, no contexto das canções, tornam mais fáceis à compreensão e assimilação da semântica passada na letra. Pelo menos abrem as portas de seu imaginário. Portanto, no caso de Paula, veio a somar no espetáculo. Agora, pra quem está dirigindo um espetáculo, aparentemente, pela primeira vez, o êxito é total. 

Musicalmente falando, a cantora tem um timbre inigualável no país. Uma potência no grave que, outrora, lembra cantoras do folk norte-americano como Joan Baez e Linda Ronstadt. O poder e a técnica vocal impressionam. Ainda mais porque emanam de um corpo delicado de mulher. 

Além disso, o público eclético no show da cantora prova que sua linguagem é simples, porém, madurecida. Quer dizer, ela toca o interior das pessoas. Inclusive, pra corroborar, e associar, nas próximas vinte apresentações da turnê Um Ser Amor, a cantora vai passar por dezoito cidades do interior brasileiro. Isso demonstra que ela também percorre o interior e, decerto, é a cara da cultura regional.  

Enfim, num show de 2h, aproximadamente, Paula Fernandes parece ter tomado as rédeas de sua carreira. E o futuro, ao meu ver, será de cancha reta.  


Por: Silva Júnior

Fotos: Edu Defferrari

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