Entrevista: Dead Fish

Na última quarta-feira, dia 16 de julho, tivemos a oportunidade de entrevistar Rodrigo Lima, frontman da banda capixaba de hardcore Dead Fish. Às vésperas do show em Porto Alegre, Rodrigo conversou com o POA Show a respeito de música, cena independente, a vida no palco e a relação com Porto Alegre. Confira abaixo a entrevista exclusiva com o vocalista. 

POA SHOW – O Dead Fish está na estrada há mais de 20 anos. Sempre mantendo seu estilo e sem render-se a modismos ou fazer concessões, o que denota uma firmeza de própósito muito grande por parte da banda. Que valores e critérios guiam o Dead Fish, musical e ideologicamente, nessa longa trajetória?

Rodrigo Lima – Eu não sei se na totalidade deste tempo a gente teve esta firmeza, muitas vezes, eu pessoalmente, achei que não. Acredito que se estamos aqui até hoje seja principalmente por sermos folgados o bastante pra acreditarmos no que fazemos independente do que todos achem, e por termos sido duros por duas décadas em sempre colocar a banda acima dos indivíduos nela. Isso pode ser terrível, já leu o livro do Johnny Ramone? O Comando? Acho que em parte fomos muito como ele no procedimento com a banda e isso acabou refletindo musicalmente no que queríamos e fazemos até hoje na estrada. Disse isso numa outra entrevista e vou repetir. Talvez sejamos a banda que mais errou no cenário brazuca em todos os tempos mas, também fomos a que mais aprendemos e acertamos de todas as bandas. Sempre me senti numa banda bastante a esquerda no espectro político do país, sempre nos guiamos por ideias menos conservadoras e elitistas tanto musicalmente como comercialmente. Acredito que isso nos torne uma banda esquerdista. Não que pessoalmente tenhamos todos pensamentos super embasados teoricamente para a esquerda, na real, sempre achei internamente que existisse um embate grande entre ideias conservadoras e outras mais progressistas. O que também tornou a banda muito fechada em si mesma, sempre discutindo internamente tudo.

POA SHOW – O novo álbum, ainda vindouro, marcará a volta da banda ao cenário independente após longo período na DeckDisc. O que levou a banda a retornar à cena independente? 

Rodrigo Lima – Basicamente experiência, tempo de cenário e algum jogo de cintura que adquirimos. Esta será mais uma aventura da banda, o que é bastante instigante depois de quase dez anos numa gravadora. 

POA SHOW – Onde será gravado o novo álbum? A produção ficará a cargo de quem?

Rodrigo Lima – Esta sendo gravado no Estúdio El Rocha em São Paulo pelo Fernando Sanchez, estamos adorando estar em estúdio com ele. 

POA SHOW – Para a realização deste trabalho, a banda promoveu uma campanha de crowdfunding, ainda em andamento, que já atingiu bem mais do que o valor pleiteado inicialmente. Como a banda decidiu se valer do crowdfunding e quais as percepções sobre este processo?

Rodrigo Lima – Esta foi uma ideia do Denis Porto que era nosso empresário e é o empresário dos Raimundos. Ele veio com a ideia há uns dois anos atrás. Eu particularmente era um pouco cético mas, esta provado que é uma super ultra ferramenta para uma nova forma de independência, independente de arrecadar muito ou pouca grana, é um formato sensacional. Quando o André Pastura entrou ele formatou ainda mais a ideia pra que coubesse com o nosso tipo de procedimento, pra que não ficasse algo desnivelado tipo fã/artista porque não gostamos desta forma. Foi super importante dizer que às pessoas seriam financiadoras e parceiras da banda, acho que isso fez uma diferença na nossa proposta de financiamento coletivo. As pessoas estão ali como nossos parceiros e receberão sua parte nos frutos do crowdfunding. Agora, que conseguiríamos tanto respaldo isso, apesar de muita gente dizer antes que daria muito certo, foi uma surpresa até pra mim. Foi definitivamente um acontecimento que me fez, e faz, repensar muito do que já fizemos, sobre parte do nosso legado, do valor da banda pra todas estas pessoas e do respaldo que temos num cenário tão pequeno e tão cheio de altos e baixos. Só posso agradecer. Se antes as pessoas achavam que eu me achava, não podem nem imaginar como estou me achando agora, neste momento, hahahaha.

POA SHOW – O Dead Fish tem uma base de fãs bastante fiéis, que lotam casas de show de diferentes portes Brasil afora. 

Rodrigo Lima – O mais legal é a renovação das gerações. De 1991 até hoje, já vimos umas três gerações passarem ali na nossa frente. Eles vão ficando mais velhos e vão se encostando mais pra perto do bar e os bem mais velhos ficam bem lá no fundo longe do moshpit. 

POA SHOW – Por vezes a banda excursiona fora do Brasil. Como é a experiência de cantar em português para um público diferente do brasileiro?

Rodrigo Lima – Eu gosto, é um outro tipo de desafio porque a rapaziada não entende uma vírgula do que estou cantando. Então as vezes faço como estes vocalistas de banda de grind/crust que antes de começarem a cantar explicam um pouco da música. No Chile uma vez me pediram pra falar sobre as letras e tudo mais, era um festival pra apoiar os estudantes que lutam por melhoria no ensino deles por lá e foi super interessante mas, é completamente diferente de um show no Brasil, onde somos mais conhecidos.

POA SHOW – Certa vez a banda abriu um show do Bad Religion em Porto Alegre e você estava, para surpresa de muitos, de pé quebrado/lesionado. Conte para nós essa história, como se machucou, como aconteceu a abertura, o que veio antes, o que veio depois e quais suas lembranças daquela apresentação. 

Rodrigo Lima – Foi no gigantinho? É assim que ainda chamam o ginásio do Inter? Enfim… Me lembro perfeitamente desta noite. Tínhamos meia hora de apresentação, sempre senão me engano foi um ou dois anos após a apresentação do fórum social mundial, que deu aquela treta enorme. Me lembro de estar aliviado de não existirem brigadianos (é assim que chamam policiais, certo?) no meio do público, foi histórica esta apresentação, entre muitas que fizemos ai… O pé eu quebrei num show do Hangar 110 em São Paulo quando aterrissei com o pé de apoio direto na tatuagem nova no tornozelo do Alyand. Isso deve ter sido uma semana antes destas apresentações com o Bad Religion. 

POA SHOW – Já em 2013 o Dead Fish dividiu o palco do Opinião com os Raimundos. Aconteceram outros shows com os caras? Como surgiu essa parceria e como foi tocar com outra grande banda nacional?

Rodrigo Lima – Sim, tocamos alguns outros shows com eles, como disse, tínhamos um mesmo empresário e ele, algumas vezes, casava alguns shows juntos. Os Raimundos são uma grande banda, foram extremamente criativos quando criaram um estilo só deles, inimitáveis. Criaram um mercado enorme pro rock e isso é muito meritório. São grandes sujeitos. Gosto muito do Canisso.

POA SHOW – Qual a relação do Dead Fish com a internet, a respeito de promoção e disponibilização de material?

Rodrigo Lima – Quer dizer baixar som? Sempre fui muito a favor, não é inteligente ser contra, tudo que você quiser, em qualquer qualidade e formato hoje, tirando vinil, tu acha na internet. É um caminho sem volta e quem for contra acaba se limitando. 

POA SHOW – E a expectativa para sábado? Deixe um recado para os fãs gaúchos, convocando para a apresentação do dia 19. 

Rodrigo Lima – Sempre a melhor, adoro o Opinião, casa histórica. Fico feliz de poder ainda estar fazendo parte desta história depois de tanto tempo. Quanto aos gaúchos… Povo gaudério!! Siga em frente! Apareçam! 

Por: Marcel Bittencourt

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