Omara Portuondo em Porto Alegre: sua passagem e alguns significados.

Trata-se aqui neste presente texto, de uma não-resenha da recente apresentação da Omara Portuondo em Porto Alegre. Parto do pressuposto de que no fundo não teria sentido tentar descrever uma apresentação musical (como não teria sucesso quem tentasse traduzir algo que pertence às diversas sensações experimentadas diante de uma apresentação artística) e também da ideia de que poucos realmente interessados em saber como foi o show não estavam estavam lá. No máximo quem vai ler esta não-resenha será um curioso ou algo do tipo. E mesmo se eu fosse muito talentoso nessa tarefa que mistura a realidade presenciada com a tentativa de torná-la registrada em palavras limitadas a um texto, o que eu conseguiria seria deixá-lo ainda mais chateado por não ter ido.

Claro que sei que existem ótimas descrições de shows, inclusive gostaria de acreditar que já consegui isso em algumas vezes por aqui, mas também tenho certeza de que nunca estão à altura do que de fato foi vivenciado pelos presentes. Em outros casos o texto pode ser até melhor do que fora a apresentação, mas aí os créditos são inteiramente da imaginação e habilidade do escritor, não um do resenhista.Poderia dizer, sem trazer novidades, que a Omara está girando o mundo na sua turnê comemorativa dos 55 anos do disco “Magia Negra”, divisor de águas na trajetória de Omara. Responsável, por assim dizer, pelo início da sua carreira de cantora, e não mais uma dançarina, que já cantava em um quarteto mas sem maiores pretensões de estrelato . Este trabalho, gravado em 1959, ano da revolução que levou Fidel e Che ao poder, ironicamente foi uma tentativa bem sucedida de mesclar o jazz estadunidense com os ritmos cubanos e latinos. Este período na história da música é justamente marcado pelo florescimento e desenvolvimento da indústria fonográfica, que começava a fomentar novos mercados por todo o mundo e incentivando o surgimento de figuras icônicas locais. Desde então sua história foi sendo escrita através de dezenas de discos, em parcerias que não deixam dúvidas sobre a importância que foi conquistando. As suas gravações com os lendários músicos do Buena Vista Social Club e a parceria com Maria Bethania num show onde a brasileira prestava a devida reverência à cantora cubana, e que inclusive foi apresentado no Brasil, configuram como dois grandes momentos recentes desta trajetória que ainda prossegue.

Caberia também citar uma estranha poltrona posta no palco, em frente ao microfone de Omara, e que eu tinha achado que serviria para que a cantora pudesse fazer a apresentação sentada (o que não seria de se estranhar, pelos motivos óbvios) mas que acabou se mostrando apenas como uma segurança extra, visto que pouco foi usada. Em grande parte do tempo, o que se via era uma artista que não conseguia cantar sem que estivesse pulsando no tempo da música, ou seja, de pé e dançando. Diria até que aquela poltrona, de alguma forma, deve remete-lá, metaforicamente, à sua aposentadoria. Quanto mais longe dela, melhor. Todos ali presentes, praticamente lotando o espaço do teatro, foram para a apresentação sabendo que presenciariam um momento especial. Uma dama de tamanha importância, de forma alguma apresentaria um show burocrático e menor. A banda que acompanha Omara há mais de uma década é de uma fineza só, e a interação e intimidade entre eles e a cantora é de uma harmonia ímpar. Até mesmo um “Guantanemera” e um “Besa-me mucho” no final da apresentação não foram capazes de diminuí-la (e aqui cabe considerar que mesmo essas duas canções gozam de muito mais credibilidade na voz de quem já as gravou há 55 anos atrás, do que da grande maioria de seus outros intérpretes). 

Um outro elemento que, creio, cabe notar, tem a ver com o que falava no início da não-resenha, como um registro histórico (sem a pretensão pomposa que esta frase subentende). Afinal, pouco do que pode se chamar da seleta parcela dos prestigiados artistas cubanos, ainda fazem turnês mundiais (o Buena Vista já avisou que encerra suas atividades ano que vem, em um show em Havana). Omara, com seus 84 anos, talvez em breve também esteja anunciando sua merecida aposentadoria (o que poderia reconciliá-la com a poltrona), e assim este imenso e maravilhoso mundo artístico ficaria sem uma de suas tão belas e fortes marcas. Este mundo a que me refiro, composto por grandes ícones de uma cultura muito própria, que povoam o imaginário de gerações inteiras – como símbolos de uma tradição cultural precisa, ligados diretamente a parte do que se entende por uma expressão cultural de identidade – está, de certa forma, se apagando. Sem querer soar pessimista, arrisco uma ideia a partir de uma pergunta: quantos artistas esperamos ver se apresentando daqui 20 anos e que conseguiriam simbolizar para seu público, algo parecido em termos de ícone de uma cultura musical com raízes fortemente populares, como o que representa a Omara? Trazendo essa questão para o cenário brasileiro, quantos teríamos? De pronto, não me vem nenhum.

Na saída da apresentação, no meio da fila, escutei uma mulher , na faixa dos 40 anos, conversar com seu acompanhante que aparentava uns “50 e bem pouquinhos”.

– Viu só, tem salvação. Tinha um pessoal mais jovem hoje. 

– Ah é? Não vi muito não.

Meu otimismo vem justamente da noção de que o universo musical é uma grande representação, composta por diversas cores e nuances, do que são as diferentes e complexas formas de expressão artísticas de um determinado tempo e subjetividade. Esse universo nunca morre, se rearranja, adquire novas identidades e segue na sua constante mudança, e Omara é certamente um grande símbolo, ainda presente, que nos remete a lindos cenários da riquíssima música latina. Pedaço de uma história de consistência. Não há a necessidade de salvação. Eis a chave para algum otimismo.

Por: Angelo Borba

Fotos: Priscila Feller

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