Guns n’ Roses: espetáculo saudosista no Beira-Rio

Noite de temperatura amena em Porto Alegre e a cidade se prepara para receber aquele que tenta arrancar dos Rolling Stones o título de “show do ano”: após duas passagens pela capital gaúcha promovendo o controverso álbum “Chinese Democracy”, Axl Rose volta a se apresentar em solo gaúcho, desta vez na primeira apresentação brasileira da turnê “Not in this Lifetime”, que marca a reunião da espinha dorsal da outrora considerada “banda mais perigosa do mundo”. Ao lado de Slash (guitarra), Duff McKagan (baixo) e um competente time de músicos contratados – contando, ainda, com o guitarrista Richard Fortus, o baterista Frank Ferrer e a dupla de tecladistas Dizzy Reed e Melissa Reese – a versão repaginada do Guns n’ Roses proporcionou uma viagem no tempo aos mais de 50 mil fãs que lotaram o estádio Beira Rio.

Os relógios marcavam 21h23 quando as luzes se apagaram para as introduções instumentais – os temas dos Looney Tunes e do filme The Equalizer – que antecederam as primeiras notas de Duff McKagan no inconfundível riff inicial de “It’s So Easy”. As primeiras explosões vieram, anunciando que a mais aguardada turnê de reunião da história estava finalmente ali, diante de nossos olhos. Fãs das mais diversas faixas etárias saudaram o trio que escreveu uma das mais importantes páginas da história do Rock. Na sequencia, “Mr. Brownstone” também empolgou, mas não tanto quanto a canção de abertura. Em uma postura mais contemplativa do que catártica, o fã porto-alegrense teve uma postura predominantemente adulta.

Se a catarse projetada não deu as caras com a dobradinha inicial, um clima ainda mais pacato deu segmento ao show com “Chinese Democracy” – que só pelo nome já sofre rejeição, mesmo sendo uma ótima canção de Rock. Foi interessante observar Slash e Duff dando sua interpretação às linhas originalmente compostas por DJ Ashba e Tommy Stinson, respectivamente. Logo no começo foi possível sentir a aura e compreender a tônica do espetáculo: Duff McKagan era o pilar de sustentação, a pedra fundamental que fazia com solidez a ligação entre a versão atual do Guns n’ Roses – com os já citados instrumentistas profissionais – e o Guns do passado, eternamente vivo em nossos corações, representado por um já não mais brilhante, mas ainda dedicado e fervoroso frontman e por um guitarrista que parece melhorar com o tempo. Mais de duas décadas ávido por ver Axl e Slash no mesmo palco, o público já considerava o espetáculo histórico. Para a coroação final, faltava o também já previamente aprovado repertório de hits soberanos. E o efeito disso pode ser constatado às primeiras notas de “Welcome to the Jungle”.

A partir dali, um repertório bem escolhido – e sem surpresas, afinal já vem sendo repetido há meses – mesclou sucessos e lados B. Entre os hits, destaque para “Live and Let Die”, “You Could Be Mine” e “Civil War”, além da surpresa negativa pelo desdém demonstrado em “Rocket Queen”, um clássico que serviu para a galera comprar outra cerveja. Já naquelas mais obscuras, mas que garantem a alegria de parte do público, destaque para “Attitude”, dos Misfits, com Duff nos vocais e para a belíssima versão com um dueto de guitarras para “Wish You Were Here”, do Pink Floyd. Outro momento de brilhantismo envolvendo as seis cordas foi o solo, baseado no clássico tema de “The Godfather”. Não é comum que um guitarrista arranque aplausos em um solo. Mas Slash pode ser qualquer coisa, menos um guitarrista comum (por mais que muitos virtuoses desse instrumento insistam em afirmar o contrário).

Para o bis a banda optou por “Don’t Cry”, com a intro de “Baby I’m Gonna Leave You”, do Led Zeppelin, “The Seeker”, do The Who e pelo fechamento com chave de ouro: “Paradise City” (repetindo a opção dos shows anteriores na capital).

Alternando seus incontestáveis sucessos com canções menos emblemáticas – mas nem por isso menores – a banda capitaneada por Axl Rose e Slash levantou o público – ainda que de forma contida. Seja por parte da audiência – que poderia ter valorizado um pouco mais as ótimas interpretações para as épicas “Estranged” e “Coma” – ou da banda – que poderia ter se esmerado um pouco mais nas execuções apáticas de “November Rain” e “Knockin’ On The Heaven’s Door”, o show do final e parcialmente reunido Guns n’ Roses acabou por entregar apenas e exatamente aquilo que se propõe: um excelentemente acabado produto para atender a uma demanda do show business. Se na virada dos 80 para os 90 cinco jovens cabeludos fizeram fama e fortuna deixando um rastro de destruição e boletins de ocorrência por onde passavam, hoje três senhores geram emprego garantem suas aposentadorias levando alegria e felicidade aos saudosos corações de jovens adultos ao redor do globo. A turnê “Not in this Lifetime” pode não ser o supra-sumo do Rock and Roll. Como show de Rock – puro e simples – ignorando-se o enviroment – o que Slash entrega com Myles Kennedy & the Conspirators é muito mais genuíno- menos firula e estrutura, mais banda se doando no palco. Porém, como espetáculo – luz, som, repertório, relevância história, influência, pudemos presenciar a primeira aparição em solo gaúcho do mais jovem dos dinossauros do Rock.

O Guns n’ Roses de 2016 pode ser uma versão mais bem comportada do que aquela que era o temor dos avós dos nossos filhos. Uma versão mais adulta, quase inofensiva. ­Mas cumpre com louvor aquilo que promete: entreter e matar saudade com uma noite inesquecível ao lado de três das mais importantes figuras da história do Rock and Roll.

Que venha o próximo.

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Katarina Benzova

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