Green Day: quebrando tudo, mais uma vez

Noite quente de terça-feira e o Green Day volta a Porto Alegre. Sete anos após um show histórico no Gigantinho, o trio californiano de Punk Rock volta à capital gaúcha com sua nova turnê, Revolution Radio. Acompanhados da banda de Ska Punk The Interruptors, a banda de Billy Joe tem girado o mundo arrastando grandes públicos e firmando o nome da banda como o principal expoente do estilo hoje. A abertura ficou por conta da banda gaúcha Vera Loca.

 

The Interruptors

 

Praticamente – e injustamente – desconhecidos por aqui, o quarteto The Interruptors subiu ao palco pontualmente às 20h. Ainda com sol, esbanjaram simpatia e dividiram o repertório – curto, de pouco mais de meia hora – entre seus dois álbuns (BLA de 2014 e BLE de 2016). Destaque para as excelentes “By My Side”, “Take Back the Power” e para “Family”, que fechou o set. Divertido, leve e cheio de energia, o quarteto levantou de verdade o público presente, que chegou a entoar melodias junto à banda. Nada mal para quem estreia por aqui. No fim das contas, The Interruptors se mostrou uma escolha acertada para acompanhar o Green Day nessa tour. Vale a pesquisa pra conhecer mais sobre a curta discografia dessa grande banda.

 

Green Day

Pouco antes das 21h, como vem acontecendo em todos os shows dessa turnê, o sistema de som dá início a “Bohemian Rhapsody”, do Queen. Os mais antenados comemoram. Em seguida, “Blizkrieg Bop”, dos Ramones, em uma homenagem à maior banda da história do Punk Rock. Por fim, o tema de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” serve de trilha sonora para a entrada triunfal do Green Day. Primeiro, o baixista Mike Dirnt corre por toda a extensão do palco e toma posição em frente a seus amplificadores. Em seguida, o baterista Tre Cool e os músicos de apoio Jason White (guitarras), Jason Freese (teclados, saxofone) e Jeff Matika (teclados, guitarras e violões) se preparam para receber o vocalista e guitarrista Billie Joe. Sem grandes firulas, apenas os músicos, os instrumentos e os equipamentos no palco. Sob fortes aplausos, dão início àquela que, de cara, já foi um dos pontos altos: “Know Your Enemy”. Um fã é alçado ao palco. Visivelmente feliz – como não poderia deixar de ser – ele divide os vocais de Know Your Enemy com Billie Joe e encerra a performance com um stage dive.

Na sequencia, “Bang Bang” e “Revolution Radio” – ambas do mais recente álbum da banda – mantêm o clima da apresentação e o pique do público em todos os setores. Logo no início, o primeiro ato de posicionamento político por parte do Green Day: “No Racism, No Sexism, No Homophobia and No Donald Trump!”, bradou Billie sob fortes aplausos. Um ato corajoso e importante em tempos obscuros onde o fascismo vem ganhando força.

A partir dali, o que se pode apreciar foi uma valanche de hits, desde velharias como “2000 Light Years Away” e os clássicos “When I Come Around”, “She” e “Basket Case”, do álbum Dookie (que catapultou a banda ao sucesso em 1994) até sucessos mais (não tão) recentes como “Holiday” e “Boulevard of Broken Dreams”. “Longview”, com sua clássica linha de baixo, também faz a alegria dos fãs mais antigos. Novamente, temos um fã no palco, desta vez uma menina. Tímida e nitidamente emocionada, também canta alguns trechos e ensaia um stage dive. A preocupação com os óculos foi rapidamente superada com o incentivo de Billie e das dezenas de milhares de pessoas que clamavam pelo mergulho.

 

Não faltaram declarações de amor. “Viva Brasil” foi berrado por Billie Joe muitas e muitas vezes ao microfone. Certamente mais de dez. Dado momento, o frontman chegou a beirar as lágrimas. Também foram muitos os objetos arremessados ao palco, com destaque para uma camiseta do Linkin Park, que Billie estampou no peito enquanto apontava para o céu, em uma breve e singela homenagem a Chester, morto no mês de julho, e duas bandeiras, uma do Brasil, com a inscrição “Fora Temer” e outra preta, com os dizeres “Fora Temer = No Trump”. Ambas receberam destaque, a primeira sendo posicionada sobre o bumbo da bateria de Tre Cool e a segunda erguida e vestida como uma capa por Billie Joe.

Outro momento brilhante foi o cover de “Knowledge”, (do Operation Ivy) a banda recebe o reforço do baterista Jesse Bivona, do Interrupters, e, novamente, uma fã é convocada a subir o palco. Porém, desta vez, queriam um guitarrista. Janine (ou será Jeanine? Ou Gianine? Enfim, desculpem), uma menina simpática de óculos grandes é a felizarda e acompanha o Green Day repetido a melhor sequência de três acordes que já tocara. Cheia de confiança e de atitude, ela transita pelo palco, levanta o público e é ovacionada. Janine teve seu momento de Rockstar e, como prêmio, levou a guitarra de presente. Acho que não é errado afirmar que foi o melhor dia da vida dela.

Um show do Green Day nunca foi nem nunca será um espetáculo protocolar, estruturado ou sério. Mas a galhofa tomou conta do palco com os músicos fantasiadas para King For a Day e com o interessante medley que teve início com Josh executando a melodia de “Garota de Ipanema” no saxofone e contou, ainda, com trechos de clássicos como “Always Look At The Bright Side of Life”, do grupo de humor inglês Monthy Phyton, e dos hinos “Satisfaction”, dos Stones e “Hey Jude”, dos Beatles. Após isso, encerrou-se o tempo regulamentar com mais duas pedradas: “Still Breathing” e “Forever Now”.

Para os retornos ao palco – foram dois – a banda optou pelos clássicos certeiros: “American Idiot” e “Jesus of Suburbia” formaram a reta final apoteótica que antecedeu a beleza do encerramento com duas performances acústicas do vocalista Billie Joe: “21 Guns” e Good Riddance (Time of Your Life)” fecharam com chave de ouro as mais de duas horas e meia de show no Anfiteatro Beira-Rio.

O show do Green Day em Porto Alegre teve muito daquele que marcou os fãs na estreia da banda em 2010: um repertório bem escolhido por uma banda que soube renovar o seu público, estrutura de primeira linha e artistas dando tudo de si no palco. Porém, dessa vez, foi ainda mais. Teve interação intensa com o público, teve declaração de amor, teve fã no palco. Teve gente ganhando uma guitarra, teve água na galera. Teve tiro (de arma de camiseta), fogo e explosão. Enfim, tudo de legal que um show de Rock pode oferecer teve, em Porto Alegre, no show do Green Day. Os três caras, bem como seus músicos de apoio, sobem ao palco com uma missão – que é enlouquecer completamente uma massa – e não descansam enquanto essa missão não for cumprida. Green Day é exemplo do que uma banda deve ser.

De novo, o Green Day veio a Porto Alegre para fazer um dos melhores shows do ano, mesmo com grandes dinossauros se apresentando no mesmo período. Nos mais de 150 minutos de show, o Green Day fez, pela segunda vez, história em Porto Alegre. Armados de muita energia e uma avalanche de hits, a banda fez valer cada centavo do valor do ingresso, entregando um show não apenas extenso, mas intenso e vigoroso. Levam ao palco a essencia do punk, seja na música ou na atitude, de forma palatável a ponto de encher grandes arenas. Uma das últimas grandes bandas da história do Rock quebrou tudo, mais uma vez, na capital dos gaúchos.

Que venha o próximo.

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Michael Paz/ BMoov

Publicações Relacionadas

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *