Entrevista: Anthrax

abril 23, 2012
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Na próxima quarta-feira, dia 25, o Anthrax divide o palco do Teatro do Bourbon Country com o Misfits para uma noite muito especial. A poucos dias de sua primeira apresentação em terras gaúchas, Charlie Benante, baterista do Anthrax, nos concedeu entrevista por e-mail, onde fala de música, Metal, Big 4 e a alegria de tocar em Porto Alegre.

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Entrevista: Lobão

março 1, 2012
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lobao1 Entrevista: Lobão

 

Lobão concedeu, na última segunda-feira, longa entrevista ao Poa Show. Gentil, articulado e muito solícito, o cantor conversou com Marcel Bittencout por mais de 30 minutos em uma conversa onde falou do show da próxima quinta no Opinião, além de sua carreira atual, Rock, MPB e a polêmica do Lollapalooza. O texto é longo, mas vale o tempo investido.

Poa Show – Esse ano você foi o escolhido para ser o responsável pela reabertura do Opinião, o que é sempre um show especial. Como surgiu essa possibilidade o que isso significa para você pessoalmente?

Lobão - Foi muito natural, eu recebi a notícia de que eu ia tocar em Porto Alegre. Pensei "Ótimo, estou doido pra tocar!" Depois que vi que é uma data tradicional no Opinião, fiquei mais lisonjeado, evidentemente.

 

Poa Show – Como funciona a escolha de repertório do seu show?

Lobão – A gente tem um "chassi" básico de músicas. Mas como a gente está tocando juntos já há três anos, a gente tem uma elasticidade muito grande pra chegar na hora e montar um shows. Cada show que a gente toca a gente varia umas oito ou nove músicas, o que é muito aliviante para nós. Temos esse chassi, mas cada show é um show diferente

Poa Show - Acaba sendo interessante pro fã.

Lobão – Sim, a gente tem muita música de lado b que a gente alterna.

Poa Show – Ao vivo uma das coisas que mais chama a atenção é o excelente som de guitarra que você tira. Qual é o seu set?

Lobão – Agora já mudei o set, são dois Blackstar 200w, que são incríveis (comprei recentemente) São amplificadores que conseguem levar o som a um nível que eu nunca tinha conseguido. Foi um grande reforço pro som, um timbre maravilhoso, então já tem essa mudança. Eu estou sempre pesquisando, o que está saindo, que é viável principalmente raciocinando em termos de que sou um cara que canta então a minha pedaleira, o som, também é baseado na minha ergonomia, pra poder tocar e cantar ao mesmo tempo, se tornando uma coisa só. Eu estou gostando muito de me dedicar a isso, só me dediquei a isso, a buscar um timbre de guitarra, nessa última década. Eu nunca tinha me dedicado a isso, a ser guitarrista, nem tampouco cantor, então eu estou me estreando em uma área que eu nunca tinha me dedicado.

Poa Show – Em 1999 você lançou um álbum histórico, muito importante para o mercado fonográfico nacional que foi "A Vida É Doce". Qual a importância deste disco para você e como você enxerga ele na sua discografia?

Lobão – Foi meio épica a historia toda. Não foi apenas o disco, mas a invenção de um formato. Foi a minha própria reinvenção como compositor e como direcionamento estético, por ser o final de uma trilogia que envolvia Nostalgia da Modernidade (95) e Noite (98). ele fechava isso o que significava pra mim que eu estava amadurecido como compositor. Acho que "A Vida É Doce" me dá esse crédito. e fora o fato da coisa de ser numerado, que abriu para a numeração do disco, o fato de ser lançado em banca, driblando todas as regras daquele momento que a indústria fonográfica ditava e fora o repertorio que singularmente tem musicas que são muito importantes para a minha vida pessoal e muito importância para a mim como musico e compositor, que me lançaram a um outro patamar como musico e compositor. é um disco que eu tenho o maior xodó com certeza.

Poa Show – Antes de “A Vida É Doce” ser lançado, houve uma campanha contra a pirataria com diversos nomes da música brasileira. Você foi convidado e não aceitou. Como foi isso?

Lobão – O que na verdade aconteceu foi que eu fiquei indignado porque esses mesmos caras que fizeram essa campanha, nós enquanto classe musical, nos anos 80 a gente se reunia na casa do Chico Buarque. Com Gil, Caetano, Paralamas, esses caras, Milton Nascimento, era um sonho da classe musical a numeração do disco. E no primeiro momento em que as gravadoras se sentiram vulneráveis com a pirataria, pirataria essa que tinha sido promovida e chancelada pelas próprias gravadoras, E era um desaforo essa coesão publica, porque eles estavam querendo criminalizar o consumidor… "não ouça o meu disco"…

Poa Show - Como, aliás, acontece até hoje.

Lobão – Mas naquela época foi muito mais acintoso porque não tinha nenhum freio, né? Então as pessoas não fazem aquela coisa tão descarada como estava. O que aconteceu, aconteceu novamente porque eles se fuderam, graças a Deus.Isso que fez aquela coisa da numeração ser aquela historia maluca como foi. Pra você ver como eles são covardes. O meio musical não se mexe. Como no caso do Lollapalooza, que foi a mesma coisa, que você viu que eu fiquei sozinho. OS caras fingindo que não era com ninguém, então isso é uma coisa corriqueira. Talvez o Rock and Roll inexista no Brasil por isso porque basicamente você tem que ter uma atitude proativa, né? O que a cultura nos oferece é isso, mas… Po, qual é? Mas isso não acontece, né? As pessoas são muito submissas. Toda a cultura brasileira gira em torno dessa submissão, aí vira uma capitania hereditária, todo mundo fica procurando o santo graal da MPB, a linha evolutiva da MPB, essa punheta… as pessoas esquecem que a grande inovação da música no século XX pro XXI foi o que? Foi o timbre! E quem é que pesquisou timbre? Quem vivenciou o timbre? Foi o Rock! Quem deu timbre de guitarra, distorção, chorus, delay, sintetizador, voz maluca, foi o Rock! E a gente não entrou nessa era na Música Popular Brasileira porque ainda estamos na época da complicação da harmonia e esquece que nossos timbres são uma porcaria. Ninguém se liga… Nenhum artista da MPB… Tem que cagar pra timbre, ser um banquinho, um violão, regional, imitando aquela coisa jazz subgrupo dos anos 70, fusion, Jaco Pastorius, do Djavan que é uma coisa horrorosa. E a gente tem essa coisa caipira contra a guitarra elétrica que é uma espécie de inveja fálica, inveja do falo do americano… A gente não resolveu problemas básicos… a gente comemora a semana de arte moderna de 22 como se aqueles estúpidos ainda tivessem vigor, e tem, infelizmente, nessa sociedade que se alimenta de vômito… (risos) Porra, você ficar orgulhoso de ser antropófago em pleno século XXI, e achar que a preguiça, o mau-caratismo, todos os preceitos da semana de 22 são válidos, você tá fudido! A verdade é que estamos fudidos! Você pode perceber que de 22 pra cá não teve um movimento grande que contestou essas idiotices! Pelo contrário, corroboraram! O concretismo dos 50, que já é uma coisa antiga a poesia concreta dos anos 50, e depois a tropicália (risos), falando a mesma merda que a semana de 22. Então, a gente não tem a menor condição de gerar uma geração que se imponha e se renove e que corrija os erros eventuais da geração anterior. Então a gente só tem uma sedimentação de puxa-saquismo, só tem uma reverência, sempre as mesmas pessoas, os mesmos grupos, os mesmos vícios… graças a Deus eu já estou ficando velho o suficiente para não ter a menor paciência pra isso e tratar isso de uma maneira mais dura. Acho que tem que ser tratado mesmo. É um absurdo a gente viver uma situação tão miserável intelectual e artística quanto a gente tá vivendo na atualidade.

 

Poa Show - Mas também existe a condenação total e irrestrita de quem questione esse tipo de artista.

Lobão – Mas isso eu posso te falar de cadeira! (muitos risos) Você é tido como louco, não pode falar… E as argumentações, contra-argumentações à minha argumentação, são maravilhosas: "você não pode falar porque você é um maconheiro!", "Você é um cocainômano", "você é um presidiário", "Você faz Rock", "Quem é você pra falar da música brasileira?", "Você é um roqueiro, só toca dois acordes e toca com gelo seco atrás"… as pessoas são idiotas! As pessoas são muito idioooooooooootas! E você não tem nem um cara pra fazer uma contenda, um embate ideológico de nível, porque as pessoas são idiotésimas. As pessoas não têm a menor idéia de que quando as pessoas estão indo com o jarro eu já voltei com a mobília toda. Eu já fiz esse périto de fazer música brasileira, música concreta, música clássica, tudo isso eu já praiei. Eu não faço Rock por incapacidade, eu faço por opção. Porque eu tenho certeza que o que eu estou escolhendo é o top de linha da expressão que eu posso exercer. E as pessoas não percebem isso aqui. E aí é foda, né, cara… você fica num vazio. você tem que se submeter a ouvir questionamentos e contra-argumentações do mais baixo nível que você possa imaginar.

Poa Show – Estou de acordo, mas você sabe que o termo roqueiro (ou qualquer um similar) é utilizado de forma pejorativa no Brasil, não? Poderia então se dizer que o Lobão é um roqueiro?

Lobão – Não, sou roqueiro e polêmico! Porque essa palavra polemico é muito ambígua, né? Irreverência… É muito ridículas as pessoas não perceberem o quão atrasados nós estamos. Eu sempre questiono uma coisa: agora ficamos prósperos, né? Ricos… As pessoas não percebem que aumentou nossa responsabilidade em relação a nossa incompetência. Outro dia falei uma frase na internet que eu fui fortemente rechaçado mas que eu acredito que seja, infelizmente, muito pertinente: "Antigamente nós éramos um país pobre e medíocre, o que é muito grave. Hoje somos um país rico e medíocre, o que é pior ainda!

Poa Show - Muito mais grave.

Lobão – As enchentes anuais são muito mais graves, a infra-estrutura rota e quebrada e quebradiça é muito mais grave, a corrupção desses políticos de meia tigela é muito mais grave. Nunca se roubou tanto como se rouba atualmente. Então porque a gente está totalmente feliz achando que estamos por cima da carne seca? eu não sei. Eu viajo pelo Brasil inteiro e vejo uma estrutura totalmente acabada… hospital, rodovia, ferrovia, hidrovia, qualquer coisa está caindo aos pedaços como nunca teve antes. Então, a gente está comemorando o que? Eu não entendo… A nossa cultura transita entre o Sertanejo Universiotário, que já é algo de uma oligofrenia olímpica para esse culturalismo pedante desses universotários que ficam tentando reviver a velha guarda… uma punheta que se toca de pau mole… Querer reviver uma MPB que nunca foi porra nenhuma… esses caras são uns imbecis, uns brochas, um medíocres… e aí a gente fica flutuando entre um cocô e outro. Não sei o que é pior, achar que Luan Santana é algo que seja viável ou botar uma cantriz dessas com dois nomes "Fulana de Sá", "Fulana do caralho a quatro" A MPB ficou tão atarracada, nas tão atarracada, que estão lançando um monte de cantora de churrascaria dizendo que é MPB. Essa Maria Gadu… aquilo tem que tocar Roland em churrascaria! Aquela coisa horrível, com aquela chapinha, parece mais o Neymar de óculos! Que merda é aquilo? Todo mundo achando aquilo massa… aquilo é uma oligofrenia… eu não tenho mais paciência de ver esses engodos acontecendo! A importância do papauera. Todo mundo "ah, agora é a nova Elis Regina". Todo mundo procurando aquela punheta do ano passado que já era uma punheta no passado. E as pessoas querem enfiar aquela punheta vívida… E querem enfiar isso goela abaixo nos colégios, os professores de segundo grau são todos uns petistas de merda que querem enfiar Edu Lobo na cabeça das pessoas normais que ouvem Led Zeppelin. São uns idiotas, estão acabando com a juventude brasileira. São uns chapa-branca, uns imbecis, uns bunda-moles.

Poa Show - Mas ao mesmo tempo você também defende que o melhor momento da música é o atual…

Lobão – Isso é porque eu estou fazendo alguma coisa de bom! (risos)

Poa Show – Ia te perguntar o contrário, o que você está ouvindo hoje?

Lobão – Eu agora estou no iTunes baixando música de 1971 que foi minha formação básica. Desde Tony Tornado até tudo de 71. Carole King, Yes, Jeff Beck, tudo remasterizado do Led Zeppelin, e estou ouvindo e regurgitando meu passado. Estou ouvindo com uma capacidade técnica que eu não tinha na época e ouvindo coisas que eu nunca tinha ouvido com ouvido de produtor e instrumentista e guitarrista. Por exemplo, quando eu ouvia o Led Zeppelin em 71 eu ouvia o Bonzo, eu não ouvia o Jimmy Page. Devo ter tirado algumas músicas de violão do Jimmy Page, mas nunca prestei atenção na veia guitarrística do cara nem na do Hendrix porque eu não era guitarrista na época. Então eu meio que desisti de um compromisso com a modernidade pelo menos neste ano eu estou mergulhando nas minhas reais influências… porque, afinal, o que é raiz? Porque, sabe, a gente pensa que é raiz, e eu penso isso pra mim e penso isso com as outras pessoas, geralmente eu penso isso de mim e dos outros. Qual é a tua raiz? A tua raiz não é o samba. Tua raiz é o Led Zeppelin. Essa língua eu não falo. Falo sim, mas não é a minha expressão. As pessoas tem que entender que pra ser popular e brasileiro você carrega vícios de interpretação que perduram nesses cantores de churrascaria achando que você pra ser MPB tem que estar com um banquinho e um violão, a sua música tem que ser pouco barulhenta, com pouca pressão… Então o brasileiro tem como auto-imagem aquela pessoa fraca, morna, paumolecente, que faz papauera em violão várias harmonias pauera-pa-paue-u-pá … porra, isso é muito lamentável! É de uma paumolecência indesculpável…

Poa Show – Isso me lembra uma história do Marcelo Nova contando que ouvia a irmã cantando "O pato, vinha cantando alegremente" e achava que aquilo era música para retardado.

Lobão – Pra retardado, cara! Pra retardado! E as pessoas não entendem que a bossa nova é uma emulação sórdida do cool americano em que você tinha pessoas que sofriam realmente, tinha Billie Holyday, tinha Chat Baker, tinha Charlie Parker, Miles Davis sabe? Pessoas que encontraram na música meio silenciosa uma forma de mostrar a dor interior delas. A bossa nova é pra mostrar a lerdeza total do virgem existencial que assistia corrida de submarino na praia de Ipanema! Porra!

Poa Show – Eu não vivi mas, enfim, acredito em você.

Lobão – Eu vivi, cara, eu estava lá, eu vivi os surtos de bossa-nova. Eu tinha amigos que tocavam bossa-nova e era quase como uma peça de museu. Então a bossa-nova é uma coisa de uma virgindade existencial… não é cool como o cool americano que ela emula, ela é de morna pra fria. Tiveram a Nara Leão! Você bota a Nara Leão ao lado da Billie Holyday e você vai entender o que eu estou falando… (risos)

Poa Show – Recentemente você se viu envolvido em uma polêmica com relação ao Lollapalooza. Muito se falou a respeito e houve muita informação desencontrada: o que de fato aconteceu? Gostaríamos de saber de quem esteve inserido nessa situação o que aconteceu de fato.

Lobão – Com todo o prazer. Primeiro de tudo as pessoas tem que entender que por mais delírio que queiram fazer disso tudo o histórico dessa história que eu vou contar está todinho na internet. Mas eu vou te contar da minha boca pra você entender o que aconteceu. Isso aconteceu no final de Novembro. Já em agosto, setembro, nós tínhamos sido contatados pelo festival pra poder tocar. Tinha que assinar uma promessa de contrato que nos foi IMPINGIDA de ultima hora. Então ficamos com aquilo negociado e em uma determinada sexta-feira no final de novembro eles queriam me chamar porque na segunda-feira seguinte o Perry Farrell estaria aqui e a Rolling Stone queria fazer uma entrevista comigo, o Perry Farrell e o Marcelo Nova. E aí eu falei "Po, legal". Por isso eu estava deixando todas as negociações com a minha empresária, Regina, que é a minha mulher e com o meu agente da época. Como chegou na 6a e eles iam anunciar as atrações e os palcos, todo o line-up, os caras me convocaram, me telefonaram pra dizer esse lance da Rolling Stone, afinal estava tudo se aproximando. Telefonaram aqui pra casa, pra Regina. Eu perguntei pra Regina, porque eu já sou macaco velho, que antes de ter todo esse envolvimento com Perry Farrell eu queria saber exatamente onde e quando eu vou tocar, porque eu sabia que vinha merda por ali. Aí mandaram fax, qualquer coisa, dizendo que o artista tinha que esperar e que 40 dias depois da assinatura, em momento oportuno, eles iriam informar a hora e o local de show. Aí eu pensei "eu não vou assinar isso aqui NUNCA". Aí eu telefonei pessoalmente para um cidadão e falei "Fulano, preciso saber o line-up porque eu preciso assinar o contrato". Então ele disse "Mas você já tem uma promessa, já está palavrado, o contrato é uma mera formalidade, você já tem uma promessa assinada". Aí eu respondi "Não, não tem nada pronto. Eu queria ANTES saber quando e onde eu vou tocar". "Ah, você está no filé mignon dos brasileiros". "Ah, dos brasileiros?". "É, você sabe que gringo tem essa coisa meio separatista, mas a gente escolheu você como a principal atração brasileira" – palavras dele, estou dizendo as palavras dele – "você vai tocar das duas às três da tarde". Aí eu falei "O QUE? Nana. Nananina. Eu não vou não. Eu quero tocar pelo menos no pôr-do-sol". Eu jamais disse que eu queria fechar a noite. Eu acho que pela característica do festival, que é alternativo, eu acho muito pouco provável que eles vão ter uma constelação de megastars que possam vir a fazer um show maior do que o meu. Porque eu sei o meu show. Aí ele me deu todo o setlist "fulano vai tocar às 10h, beltrano vai tocar tal hora…". Me deu todo o setlist. Todos eram piores do que o meu. Então eu disse "já que eu sou o melhor, vou te dizer que eu não vou tocar. Isso é um absurdo, um apartheid. Brasileiros tocam até as 15h e depois os gringos? Que merda! Como se não bastasse o Rock in Rio ser uma merda humilhante como o SWU também foi também, vocês vem aqui com uma proposta MAIS escrota ainda?". Aí ele disse "mas você tem que entender, Lobão, que eles estão dando uma aula de como se faz um festival…". E eu falei "aula ou não aula, eu tenho um show que em qualquer  lugar do mundo eu assino que esse show é o meu e esse show é bom pra caralho! Eu não vou fazer assim!". Ele disse "mas você não pode fazer isso porque eu também sou empresário de artista e quando há promessa de contrato, quem é o artista para falar acima do empresário?" Eu falei assim: "Pois é… o problema é que você está errado. Na minha empresa eu sou o patrão. Um cara como você é um executor de ordens. Jamais demandaria ordens e menos ainda estaria no setor de criatividade para poder criá-las. Então, já que você está me pressionando quanto a essa assinatura de contrato, você pode estar certo de que eu não vou deixar ninguém assinar esse contrato porque eu não vou assinar o contrato e o contrato assim vale. "Então você saiba que a sua entrevista com o Perry Farrell não vai mais ser possível". Eu sabia que isso poderia acontecer, e acho muito triste porque agora sim seria o momento de ter uma entrevista com ele, não é verdade? Mas como eu estava sabendo como as coisas são, eu desliguei. Isso era uma sexta-feira, eu estava indo para Belém do Pará. Quando eu estava no avião eu tive uma idéia eu pensei assim "se eu não falar nada, isso vai passar, como sempre, e ninguém vai saber dessa merda que está acontecendo". Eu estava crente. Eu pensei "a gente tem uma coisa contra nós que é uma lei a favor, que obriga a botarem a gente de bucha de canhão pra poder realizar o show internacional. Então a gente tem que pleitear ou não ter essa lei, ou usá-la a nosso favor". Aí cheguei em Belém e gravei um vídeo "aí, galera, se a gente não for, eles não vão poder realizar o festival. Se nenhum brasileiro for, não vai ter festival". Eu sabia todo o line-up, eram todos menores que eu, então eu vou dizer que não vou porque ninguém vai ter coragem de dizer que não vai, né, cara?". E tem mais: o cachê dos caras era tudo… o meu era o melhorzinho.  Neguinho ta tocando de graça, vai pro palco dois do Rock in Rio… eu fico puto, porque você está falando por você e está falando pelo seu país, não é verdade? E as pessoas me acharam ABSURDO, disseram que eu tava fazendo mimimi, eu não fiz mimimi nenhum. Falei que queria falar com o Perry Farrell de qualquer maneira, o Perry Farrell cagou no pau, disse "coitadinho desse Lobão, ele tem que primeiro fazer um hit pra poder pleitear fechar a noite". Eu nem disse isso, mas se fosse pelo raciocínio dele, de ter hit, ele saberia que eu teria que, obrigatoriamente, fechar o festival, porque se somar os hits das outras bandas, não vai dar nem metade dos meus hits. Tá entendendo? Tem que entender isso e as pessoas não entendem isso. E aí eu fico puto, né, cara? Por mim, eu to cagando um balde, porque o meu nome tá aí. Depois eu vi que vários jornalistas foram atrás disso, puseram em vários blogs a verdade dos fatos porque os caras quando falaram de mim, falaram como se eu fosse um lunático "HO HO HO, esse Lobão, sempre inventando!". Ainda mudaram o line-up no fim de semana pra poder chegar e me desautorizar, mesmo a gente sabendo que o line-up todo mudado ficou uma merda do mesmo jeito. Ficou uma merda. O que é mais triste é que foram falar com todos os brasileiros envolvidos no festival, bandas e artistas e TODOS disseram que eu estava maluco. Todos disseram que eu estava inventando. Agora, tomaram o cuidado de falar com outros caras que tocaram em outros festivais, como o Tico Santa Cruz, e ele corroborou que é verdade, que a pressão é enorme e em 99% dos casos se peida todo e faz. E esse é o caso. No Lollapalooza todo mundo ali cagou no pau e eu posso falar, porque eu sabia de todos os horários, eu estava sabendo e você pode imaginar. Seria muito gratuito eu falar isso se não tivesse de fato acontecido, não é verdade? Esses grandes festivais, desde que existem, só fizeram com que o Rock Brasileiro se fudesse. Nunca foram "Pro" porque nunca tiveram a intenção de ser "Pro". Festival brasileiro ou você põe o pau na mesa ou vai levar na bunda o resto da vida. Brasileiro está fadado a se dar mal em festival se continuar com essa atitude submissa, bunda-mole e flácida. Foi isso, cara… E aí os caras botaram o maior fogo na fogueira, quiseram me colocar como um débil mental, muitas pessoas compraram isso como sempre compram, mas acabam sempre se fudendo (risos). Eu estou aqui há muitos anos e cada vez mais forte. As pessoas não estão entendendo isso. Eu estou definido e decidido que ninguém vai me fazer de otário como assim estão pensando que vão fazer. Porque não podem, não tem nem capacidade, não tem nem tamanho. Nem juntas vão conseguir. Então tem mais é que calar a boca e chupar. Vão ter que aturar! (risos)

Poa Show - Lobão, obrigado pela entrevista…

Lobão – Eu que agradeço.

Poa Show - Pedimos, por fim, recado para os fãs gaúchos que estarão nessa quinta-feira no Opinião.

Lobão – Eu quero dizer pra vocês o seguinte, a gente está com um show que a gente está dando sangue pelo show. Eu acho que eu nunca tive com tanta garra e tanta vontade de fazer show como agora. Eu tenho certeza que esse show no Opinião vai ser épico, vai ser bíblico. Aguardem!!!!

 

 

 

Entrevista: Bebeto Alves

novembro 15, 2010
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ba Entrevista: Bebeto Alves

 

POA SHOW – Tu estás lançando uma caixa com quatro CDs (um duplo ao vivo com os Blackbagual, um de trilhas, dentre elas para cinema e teatro e um só de inéditas), como se deu a ideia deste trabalho e o que almejas com uma cartada tão ambiciosa, se considerarmos a crescente falta de interesse do público em comprar CDs?

BEBETO ALVES – Pois é, na verdade eu nunca me posicionei em termos de um mercado, se fosse assim acho que seria um artista com características muito diferentes. Eu não sou muito de “anunciar” o que pretendo fazer, pois eu dou margem sempre a uma possibilidade de “improviso”, digamos assim. Na verdade quando gravamos o disco ao vivo ano passado era para servir de musical para o filme que está sendo produzido pela Estação Elétrica. Quando vimos o resultado das gravações, o Corsetti (sempre o Corsetti!) me falou: – Pô, vamos lançar isso em disco, Bebeto, por que não?  E eu, desta vez, sem relutar, acenei positivamente.  Mas aí, justamente, é que entra essa coisa da inquietação. Achei que só um disco retrospectivo não iria contribuir em nada pra aplacar a minha necessidade imperativa de provocar a mim mesmo e a uma cena que precisa ser provocada constantemente. Aos poucos fui formatando uma ideia de me livrar de certas coisas, de abrir espaço, de limpar a área. Pensei que tinha de arriscar novamente. Foi quando me veio a idéia de fazer um pacote com tudo o que estava orbitando em meu espaço criativo. Primeiro o disco de trilhas, que é um trabalho que gosto muito, que curto produzir e pouquíssimas pessoas conheciam ou sabiam que eu desenvolvia esse trabalho. São inúmeras trilhas compostas para diversos tipos de situação. Fiz uma compilação, escolhi as que mais dialogavam com as minhas canções e cheguei ao “Cenas”. “O Maravilhoso Mundo Perdido”, o de inéditas, em formato acústico foi uma ejaculação precoce. Poderia ter me demorado mais nas preliminares, namorado um pouco mais, mas, de repente, me veio a idéia anárquica de um disco quase demo, um disco que eu ficasse só, desnudado, pele e osso, algo assim. Nunca tinha feito nada semelhante e achei que, justamente, essa seria a maior provocação, tanto para mim, como um desafio estético e também, porque não, técnico, quanto para o público em uma dimensão de conhecimento e aproximação maior que um artista músico pode oferecer. Se eu guardasse um pouco mais esse material, certamente ele seria outra coisa. Foi assim que surgiu o 3D e não me arrependo nenhum pouco, pelo contrário, acho que eu sempre almejei e continuo almejando um reconhecimento do público, na mesma proporção em que me imolo na construção de ser um artista provocador e um ser humano em desenvolvimento. Ando em paralelo.

POASHOW –  Em 2008 lançastes o disco “Devoragem”, um grande álbum e, para mim, o teu melhor trabalho, e o mesmo fora eleito por vários críticos de música do RS como um dos melhores lançamentos do ano, sendo reconhecido também fora do estado. Quais foram os frutos obtidos com aquele disco? Como enxerga o papel da crítica no atual cenário musical?

BEBETO ALVES – Pois é, o “Devoragem” é um disco que traduz minha excitação com idéias muito contemporâneas de um mundo novo, ou, em fase terminal que estamos vivendo, depende do ponto de vista e de sua dose diária de esperança. Não é um disco propositivo, apesar da faixa “O Demolidor”. Mas situo ele em uma interpretação de uma idéia de modernidade tardia ou pós-modernidade. Ele questiona, mas não aponta pra lugar nenhum. Ele confere, nomina, se diz, aponta, mas não descobre saídas. Mas é um disco de resistência sim, aliás, como todos os discos que gravo, acho que são peças de resistência, de busca de identidades, de reconhecimentos, de traduções. Eu não sei, eu nunca acho que meu trabalho é lido como eu gostaria que fosse, ou, percebido como ele realmente é, de que material ele é feito. Mas, o que se pode fazer… Olha, para ser justo, eu citaria um grande crítico, e talvez mais do que um crítico, um observador que tem levado a vida a nos interpretar, nos descobrir, nos desvendar. O Juarez Fonseca, um homem respeitado em todo o país, é o único jornalista no Brasil que pode nos redimir. Ele viu tudo nascer e continua a escrever cada vez melhor. Se existe realmente um papel destinado à crítica, o Juarez tem feito valer. Não é um cara que se acomodou, que tenha se tornado burocrático. Vejo no texto do Juarez uma necessidade também, como nós artistas, em se recriar, isso é muito legal. Mas, entendo a tua pergunta. Não sei, realmente não sei. Estamos vivendo um mundo em demolição e que, ao mesmo tempo se reconstrói. Acho que o texto do Juarez é uma possibilidade da crítica se constituir de uma outra forma, por isso o citei antes.

POASHOW – O novo disco (“O Maravilhoso Mundo Perdido”) conta com vários momentos de grande inspiração, em faixas como “Ruas” e “Te Cuida”, porém a escolha de um formato acústico imprimiu uma característica mais minimalista ao disco, não privilegiando tanto os arranjos e experimentos que marcaram o teu álbum anterior. Por qual motivo se deu essa mudança?

BEBETO ALVES – Bom essa pergunta já estaria contemplada na primeira questão que colocastes, no início da entrevista, mas, talvez, possa acrescentar mais uma coisa. O que mais me moveu em gravar esse disco foi mesmo o desafio em fazê-lo dessa forma: praticamente só violão e voz. Se não tivesse o cuidado que teve nas gravações, na execução e interpretação poderia passar por um “disco demo”: um esqueleto, uma pré-forma. Mas, com ele, e só ele me permitiu experimentar fazer canções na hora de gravar, como foi o caso da canção título e da canção composta para o meu amigo Cao Trein, que morreu no final do ano passado. A música que fiz para o Cao ainda foi um experimento mais radical, pois eu só tinha escrito em forma de poesia várias coisas sobre a impressão da morte dele sobre mim, enquanto eu me dirigia para a sua cremação. Entrei no estúdio, falei para o Rodrigo: – grava aí Rodrigo! E saí cantando sem saber para onde eu estava me dirigindo. E foi assim, um único take e era isso. O que mais eu poderia fazer por esse amigo? Só poderia me jogar de um precipício mesmo para fazer justiça a nossa vida e amizade. Ser o mais honesto que eu poderia ser, o mais verdadeiro. Outra coisa que acho bacana nesse disco, como provocação, é a guitarra que imito com a boca na “Tira-Mancha”. O disco está cheio dessas pequenas coisas que passam despercebidas em sua intenção.

POA SHOW – Sendo um artista que está na estrada há mais de trinta anos, como tem lidado com as fortes mudanças que os músicos/compositores têm enfrentado na divulgação de sua arte?  

BEBETO ALVES –  Cara, já passei por tanto e por tantas que eu não saberia te precisar. Mas sinto que muita coisa está mudando a esse respeito da mesma forma que o comportamento do consumo e da comunicação relativo aos artistas e seus trabalhos. Acho que a Internet abriu essa possibilidade. Por exemplo, este site já é um fenômeno desses novos tempos e da mesma forma o interesse do público se manifesta de maneira incomum também. As rádios não são mais os veículos que determinam o que as pessoas vão ouvir ou deixar de ouvir, se ouve menos rádio, se vê mais YouTube, e por aí vai. Mas acho que não é só isso, alguns artistas têm seu próprio selo e eles mesmo negociam seus produtos e fazem suas próprias promoções e comunicação. Ouve um redimensionamento, se criaram nichos, segmentos. Creio que, apesar dos pesares, o momento é mais propício aos artistas e a sua arte, no sentido da liberdade. Outro tipo de envolvimento se dá com o público, propiciando uma leitura mais clara e mais arejada da intenção e conceito das propostas artísticas. Acho o momento bem interessante, temos de aprender a lidar com esses novos formatos de relacionamento entre público e artistas. O público sempre teve sua parcela de importância e responsabilidade e vai continuar sendo assim, mas hoje, de uma maneira direta, sem atravessadores, no bom e no mau sentido.

POA SHOW – Grandes compositores gaúchos, ainda em atividade, como Nelson Coelho de Castro, Nei Lisboa e Vitor Ramil continuam produzindo obras de ótima qualidade, e fora o Vitor, mas nem tanto assim, os outros dois parecem não obterem mais o mesmo êxito comercial de anos atrás.  Que espaço enxerga para artistas como vocês na atual cena? Achas que tem conseguido renovar seu público?

BEBETO ALVES – Eu acho que esses artistas ainda continuam queridos por um público fiel. O que sinto é uma grande mudança nessas relações (divulgação e espaço). Se antes esses artistas precisavam de veículos para se comunicarem, hoje precisam é ter consciência das ferramentas à disposição e se disporem a trabalhar com elas. Acho que de todas as maneiras continuamos expostos e temos de saber de que jeito, de que maneira a gente quer se fazer entender com essas novas tecnologias. Certamente a linguagem mudou e temos de descobrir como nos fazer entender. Creio que, ao escrever sobre isso, nesse momento, para mim fica claro que temos um caminho novo e que pode sim nos auxiliar em todo o tipo de relação a que nos propusermos, mesmo nas relações comerciais, quando somos donos de nosso próprio nariz, somos donos do bolicho. Pessoalmente vejo um interesse crescente por parte do público pelo meu trabalho. Nunca fui um artista escolhido pelo público para ser “a sua cara” mas, sim, de tempos em tempos, gozei de um sucesso ou outro, quando músicas minhas se projetaram no playlist das rádios. Porém, tive momentos difíceis de total falta de reconhecimento e entendimento em relação ao que estavam me propondo. Nunca facilitei muito as coisas, por nada não, mas pelas minhas escolhas, pelas mudanças e quebras de paradigmas que eu sempre propus. Nunca fui um artista “confortável” para o público, pelo contrário, meu trabalho sempre arranhou, causou estranhamento, se indispôs, mas como verdade e com muita honestidade. Eu não fabriquei isso, esse é o meu caráter Acho que as pessoas começaram a perceber isso.

Entrevista: Rita Lee

junho 8, 2010
Categoria Entrevistas

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Na última semana tivemos a oportunidade de fazer, por e-mail, uma pequena entrevista de 5 perguntas com Rita Lee. Confira as respostas.

POA Show – Você é uma artista com uma carreira consolidada há muitos anos. Como você encara o fato de ainda gravar álbuns de estúdio e não ficar apenas se valendo de material antigo? Para você é uma opção ou uma necessidade?

Rita Lee – Marcel querido, depois de mais de 40 anos de carreira, me dou o luxo de fazer o que me dá vontade, quando me dá vontade.
 

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Entrevista: Rodolfo Abrantes

maio 31, 2010
Categoria Entrevistas

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Ele fez parte de uma das maiores bandas do Rock Nacional, os Raimundos. Hoje continua mandando Rock, mas em um segmento totalmente diferente: a música cristã. Alvo de especulações, assunto de boatos, incompreendido por muitos. No último sábado, 29 de maio, Rodolfo Abrantes, o homem que deixou uma banda no auge do sucesso para dedicar sua vida a Deus, concedeu, de forma gentil e atenciosa, uma entrevista esclarecedora ao POA Show. Em pouco mais de meia hora de conversa, Rodolfo fala sobre música, Deus, fé, mercado, Internet, conversão, Flamengo e, claro, Raimundos. Confira:
 
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