Rock de Galpão: Uma inusitada mistura de Rock e Música Tradicionalista Gaúcha

julho 3, 2010
Categoria Reviews

            rockdegalpao 3 Rock de Galpão: Uma inusitada mistura de Rock e Música Tradicionalista Gaúcha
Primeiro de Julho. Em uma noite quente em pleno inverno gaúcho não foi apenas a temperatura que surpreendeu. Uma inusitada mistura de Rock e Música Tradicionalista Gaúcha esquentou ainda mais a noite de quinta-feira. Neto Fagundes e a banda Estado das Coisas deram uma nova roupagem aos maiores clássicos da música gaudéria.

            Pouco depois das 21h as luzes se apagam para o início do espetáculo. Um cenário com várias referências ao galpão, com direito a feno, cabeça de gado, roda de carreta e alguns móveis rústicos, foi enriquecido por uma iluminação criativa e de muito bom gosto. Pendurados no alto do palco havia ainda vários utensílios típicos da vida campeira que, exposto a iluminação, criava belas projeções no fundo branco do palco. Esse conjunto de fatores visuais deixou claro, logo de cara, o quanto o espetáculo foi pensado e produzido com cuidado.

            A banda Estado das Coisas, formada por Tiago Ferraz (voz e guitarra), Rafa Schuler (guitarra), David Fontoura (baixo), Guilherme Gul (bateria) e Alexandre “Mestre Kó” nos teclados, acompanhada ainda pelo gaiteiro Paulinho Cardoso, sobe ao palco para o ponta-pé inicial. Em seguida, Neto Fagundes, um dos mais populares cantores gauchescos (popularidade que foi alavancada ainda mais por sua participação no cast do programa “Pretinho Básico”) toma o microfone para “Era Uma Vez”, de Aparício Silva Rillo. A canção ganhou um tom pesado e soturno, principalmente com a interpretação de Neto. Na seqüencia, a milonga “Semeadura”, de Vitor Ramil, esbanjou energia em um arranjo espetacular alternando os climas Rock e Milonga com forte presença da gaita e das guitarras pesadas.

            Muito eloqüentes, Neto Fagundes e o vocalista Tiago Ferraz se comunicam muito com o público, sempre em tom de gratidão pela presença e, principalmente, de respeito e admiração pelo Rio Grande do Sul. Os grandes nomes da música gaúcha, artistas que assinam a matéria-prima do projeto, foram devidamente homenageados. Cesar Passarinho, Jayme Caetano Braum, Os Fagundes, Rui Biriva, Elton Saldanha e Teixeirinha, entre outros, foram lembrados no repertório e nos discursos que permearam a apresentação.

            “Castelhana” levantou o público presente com seu ritmo forte e seu refrão dançante. A canção, uma das mais populares do repertório do Rock de Galpão e da própria música campeira, foi, sem dúvidas, a mais bem recebida até ali.
 
            Após “Merceditas” (que contou com a participação de Hique Gomez no violino), Neto Fagundes deixa o palco para duas canções executadas apenas pela Estado das Coisas. Destacaram-se no repertório “Vento Negro”, clássico dos anos 80 imortalizado pelos Almôndegas e a inacreditável versão sem erros de “Bochincho”, de Jayme Caetano Braum. A extensa letra foi declamada com muita personalidade por Tiago ao longo de mais de 8 minutos. Fortes e merecidos aplausos encerraram a epopéia do guasca que se metera em confusão.

            Já com quase uma hora e meia de show, o espetáculo se encaminha para o final. O excelente guitarrista Rafa Schuler executa um solo de guitarra que só pode ser classificado como impressionante. Arrancou mais aplausos ao solar com a guitarra na nuca. Todo esse virtuosismo serviu para introduzir uma versão totalmente blues para o “Canto Alegretense”. Neto manda parar tudo e chama seu pai, Bagre Fagundes, um dos autores.

          Ovacionado, Bagre, figuraça da música gaúcha, sobe ao palco completamente pilchado e portando uma pequena gaita ponto. Cumprimenta a todos, não sem provocar um pouco mais a rivalidade entre gremistas e colorados (N. do R: Bagre é, dos Fagundes, o colorado mais fanático). Bagre elogia a versão, mas mostra como se faz portando uma pequena gaita ponto. Assim, com oito músicos no palco a banda conclui a canção com um “Sol Maior de gavetão mais possível”, assim definido por Neto Fagundes.

           No entanto, o “Canto Alegretense” não encerrou os trabalhos. “Querência Amada”, de Teixeirinha (artista gaúcho que mais vendeu discos na história) também agradou. O final apoteótico foi com uma versão do Hino do Rio Grande do Sul, que todos cantaram de pé. A bandeira do Rio Grande do Sul erguida por Neto foi a imagem do que representou a noite no Teatro do Bourbon Country. Ainda houve tempo para um bis, mesmo com mais de duas horas de show. A escolhida foi “Castelhana”

           Logicamente em uma cultura tão rica, sempre algo ficará de fora. Alguns se surpreenderam com a ausência da belíssima “Céu, Sol, Sul, Terra e Cor”, talvez a mais emblemática das canções de amor ao Rio Grande. Mas não tem problema. O que importa é que o estado mais frio do Brasil recebeu uma calorosa homenagem dos gaúchos do Rock de Galpão.


Era uma Vez
Semeadura
Haragana
Cevando o Amargo
Nas Manhãs do Sul do Mundo
Castelhana
Entardecer
Merceditas
Vento Negro
Bochincho
Guri
Eu Sou do Sul
Origens
Canto Alegretense
Querência Amada
Hino do Rio Grande do Sul

Bis: Castelhana.

Por: Marcel Bittencourt
Fotos: Fabiana Menine
 
 

Rita Lee traz a Porto Alegre sua nova turnê, “Etc…”.

junho 12, 2010
Categoria Reviews

ritalee 41 of 149 Rita Lee traz a Porto Alegre sua nova turnê, “Etc...”.

 
 

 

Sexta-feira, noite de estréia. Rita Lee, a titia do Rock Nacional, traz a Porto Alegre sua nova turnê, “Etc…”. Acompanhada de uma excelente banda da qual fazem parte seu marido Roberto de Carvalho e seu filho Beto Lee (responsáveis pelas guitarras), a cantora apresentou seu novo show de forma bastante despojada e irreverente.
 
“Agora só falta você” é a escolhida para a abertura dos trabalhos. Sob poucos aplausos, as cortinas se abrem revelando um belíssimo palco. A estrutura, digna de grandes turnês da Poladian (Produtora com mais de 50 anos de atividade, uma das maiores do Brasil), conta com detalhes luminosos por todo o palco, além de um enorme telão de LED ao fundo. A luz, igualmente espetacular, também chama a atenção. Já o som, sem novidades: excelente, como é padrão no Teatro do Bourbon Country.
 
Conhecida por sua irreverência e eloqüência no palco, Rita Lee se dirige ao público pela primeira vez agindo exatamente como outra cantora: Mallu Magalhães. “Oi… meu nome é Rita… tenho 62 anos… que mais? (risos) deixa eu ver… e vou torcer pra Argentina” Levou o público as gargalhadas, mas também ganhou vaias. “Desculpem gaúchos, queridos da minha vida, meus amorecos e tudo mais… o Dunga é um Armadinejad.” (aplausos) “Tem uma de… sei lá… uma coisa do futebol guerra, de ditador, que incomoda, é revoltado, arrogante, vingativo… e o Maradona vai sair pelado.” (mais risos) “Então em homenagem aos namorados eu não vou falar em futebol. Comecei a assistir hoje fiquei enlouquecida com aquelas cornetinhas… da próxima vez vou baixar o volume que aí também não escuto o Galvão Bueno” (aplausos estrondosos). Rita ganhou ainda aqui um presente de uma fã: velas perfumadas que gentilmente agradeceu.
 
Sem um álbum novo para divulgar, Rita aposta em grandes sucessos no repertório. Os hits “Pagu” e “Bwana” arrancaram reações contidas. Já “Atlântida” e “Insônia” não agradaram tanto.
 
Rita Lee então deixa o palco e retorna com uma peruca crespa, simulando uma cabeleira “Galcostiana”. A versão de “Baby”, dos Mutantes, fez com que muitos cantassem com Rita. Com um arranjo criativo, a banda fez de “Baby” um dos momentos mais emocionantes da apresentação.
 
Aos 62 anos, Rita Lee se dá o luxo de fazer o que tem vontade, mesmo que não faça muito sentido. A versão de “Bad” de Michael Jackson, contou com um sósia idêntico àquele último Michael Jackson do qual temos lembranças. Encerrou sua performance rasgando a camisa e levando alguns fãs mais exaltados ao delírio.
 
Passado este inusitado cover, o repertório empilhou sucessos: “Ôrra Meu”, “Doce Vampiro”, “Ovelha Negra”, “Banho de Espuma” e “Lança Perfume”, apesar de não arrancarem reações fervorosas, agradaram em cheio. Destaque para “Ovelha Negra”, que exibiu no telão fotos de Rita nas mais diversas idades. As imagens mais aplaudidas foram as da época em que fez parte dos Mutantes. Ainda em “Ovelha Negra” Rita Lee dá um discurso emocionado, dizendo que teve uma infância bacana, adolescência difícil e que hoje não tem motivos pra reclamar. “Nem se o Brasil perder a copa eu vou reclamar! Eu tenho uma coisa que é a melhor de todas. Tenho um namorado lindo, gostoso, que cozinha… eu faço faxina… tenho três filhos lindos… uns amores… Beto ainda teve uma filha, minha primeira neta… Como é que eu vou reclamar? Não dá. Acho que eu até beijaria a boca do Dunga! Eu digo que vou torcer pra Argentina mas chega na hora eu sei que não vou conseguir. O pior ainda está por vir: as eleições. Oh céus, eles não sabem o que fazem. Quero mais é que eles se fodam!”. Frase mais aplaudida da noite.
 
Para o bis Rita retorna e pergunta “E agora, gente?” Alguns gritaram “Erva Venenosa”, outros “Mania de Você” mas “Flagra”, um dos maiores sucessos de Rita, foi a escolhida. Em seguida uma surpreendente versão de “It’s Only Rock and Roll”, dos Rolling Stones, com Roberto de Carvalho nos vocais. “Erva Venenosa” fechou a apresentação com pouco menos de uma hora e meia de duração.
 
Apesar do público bastante apático, Rita Lee conduziu bem seu novo show. Nada de novo. Do alto de seus mais de 40 anos de carreira isso, bem como algumas outras coisas, parecem nem ter importância.
 

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Fabiana Menine

 

Entrevista: Rodolfo Abrantes

maio 31, 2010
Categoria Entrevistas

r rodolfo 3 Entrevista: Rodolfo Abrantes

Ele fez parte de uma das maiores bandas do Rock Nacional, os Raimundos. Hoje continua mandando Rock, mas em um segmento totalmente diferente: a música cristã. Alvo de especulações, assunto de boatos, incompreendido por muitos. No último sábado, 29 de maio, Rodolfo Abrantes, o homem que deixou uma banda no auge do sucesso para dedicar sua vida a Deus, concedeu, de forma gentil e atenciosa, uma entrevista esclarecedora ao POA Show. Em pouco mais de meia hora de conversa, Rodolfo fala sobre música, Deus, fé, mercado, Internet, conversão, Flamengo e, claro, Raimundos. Confira:
 
Leia mais

ZZ Top: compensando plenamente os 40 anos de espera.

maio 24, 2010
Categoria Reviews

zztop 1 of 1 20 ZZ Top: compensando plenamente os 40 anos de espera.

 
              Noite de temperatura amena em Porto Alegre. Após um agradável domingo ensolarado, a noite ainda reservava um encerramento com chave de ouro para o fim de semana. Os texanos do ZZ Top, em turnê pelo Brasil pela primeira vez em 40 anos de carreira, chegam a Porto Alegre para uma apresentação no Pepsi On Stage. Billy Gibbons (Guitarra e Vocal), Dusty Hill (Baixo e Vocal) e Frank Beard (Bateria)  foram responsáveis por um dos melhores shows do ano na capital dos gaúchos.
 
              Com pontualidade britânica, a banda sobe ao palco para “Got Me Under Pressure”. Tecnicamente temos já na primeira música um show perfeito. Luz e som impressionam. Predominantemente branca, a luz permite excelente visualização dos músicos. Já o som é operado com extrema competência, superando qualquer adversidade habitual no Pepsi On Stage. Era possível distinguir absolutamente tudo fácil e nitidamente. Para completar, um belo e gigantesco telão de LED exibia imagens da banda.
 
              O que parecia perfeito começou a assustar. A banda deixa o palco, deixando todos apreensivos. Poucos minutos se passam e o trio retorna para excelentes performances de “Waiting For The Bus” e “Jesus Just Left Chicago”. Ao final desta, alguém da produção sinaliza novamente para a banda. Mais uma vez,deixam o palco, agora para um hiato ainda maior.
 
              Dúvida e até mesmo o temor de um eventual encerramento prematuro da apresentação começam a surgir quando a banda retorna pela segunda vez, agora acompanhados de um integrante da produção. Explicado o problema (tratava-se de uma queda de energia), o show prosseguiu com “Pincushion” e “I’m Bad, I’m Nationwide”. Até ali a banda seguia o setlist de seu DVD ao vivo, “Live From Texas”, exceto pela inversão na ordem destas últimas.
 
              Antes de “Future Blues”, Billy Gibbons chama uma jovem ao palco. Ela pergunta se está tudo bem. Segue o diálogo, onde ambos falam português (o de Gibbons chega a impressionar):
 
              – Quando você chegou aqui?
              – Hoje.
              – Só hoje?
              – Sim.
              – Você veio de avião?
              – Não
              – De navio?
              – Também não.
              – Como você veio então?
              – Com minha bicicleta! (risos gerais)
 
              Na seqüência, “Rock Me Baby”, além da já citada “Future Blues” foram cantadas de forma impecável pelo baixista Dusty Hill. Até “Rock Me Baby”, não houve uma canção de destaque. No entanto, “Cheap Sunglasses” arrancou os aplausos mais fervorosos até ali. O sempre bem humorado e carismático Gibbons ainda ganhou mais alguns pontos ao virar a guitarra e mostrar uma enorme inscrição que dizia “Cerveja”, assim mesmo, em português.          
    
              As clássicas performances cênicas da banda (danças, gestos, paradas, etc.) permearam a apresentação dos americanos. Detalhes previsíveis, mas indispensáveis para quem esperou tanto tempo por um show do ZZ Top. O único cover da noite foi uma homenagem ao grande guitarrista Jimi Hendrix, cuja morte completa 40 anos em 2010. Foi com “Hey Joe” que o trio levantou, mais uma vez, o público do Pepsi On Stage.
 
              O repertório, basicamente o mesmo apresentado em São Paulo, contou ainda com “I Need You Tonight” e as surpreendentes “Brown Sugar” e “Party On The Patio”, além da ótima “Just Got Paid”.             
              Para a reta final da primeira parte do show, uma poderosa trinca de clássicos que fez os fãs cantarem alto: “Gimme All Your Lovin’”, “Sharp Dressed Man” e “Legs” (onde a banda utilizou as clássicas guitarras “de pelúcia”) responderam pelo ponto mais alto de uma apresentação de nível.
 
              No bis os instrumentos foram diferentes: naquele momento a banda optou por escandalosas guitarras verde-limão com detalhes brilhantes. As canções escolhidas foram uma versão de “Viva Las Vegas”, canção imortalizada por Elvis Presley, “La Grange” (um dos maiores clássicos da banda, recentemente popularizada no game “Guitar Hero III”) e, por fim, “Tush”. Um encerramento espetacular para um show histórico.
 
              O grande destaque da noite foi a atuação da banda. O show é perfeito. As músicas que constam em “Live From Texas” são executadas exatamente como no DVD. O ZZ Top é uma banda que toca muito, muito, muito bem. É um show não só de Rock, mas de competência e precisão.
 
              O show do ZZ Top é espetáculo. Compensaram plenamente os 40 anos de espera com uma apresentação matadora.
 
              Quem não foi, perdeu.
 
              Muito.
 
 
Set List
 
Got Me Under Pressure
Waiting For The Bus
Jesus Just Left Chicago
Pincushion
I'm Bad, I'm Nationwide
Future Blues
Rock Me Baby
Cheap Sunglasses
My Head's In Mississipi (trecho)
I Need You Tonight
Hey Joe
Brown Sugar
Party On The Patio
Just Got Paid
Gimme All Your Loving
Sharp Dressed
Legs
————-
Viva Las vegas
La Grange
Tush
 
 
Por: Marcel Bittencourt
 
 
 

Chuck Berry: O pai do Rock and Roll volta a Porto Alegre

maio 15, 2010
Categoria Reviews

chuck8 Chuck Berry: O pai do Rock and Roll volta a Porto Alegre

Esqueça tudo que você já ouviu ou leu sobre um show intimista. Esqueça as idéias pré-concebidas sobre contato de um artista com seu público. Chuck Berry, o pai do Rock and Roll, proporcionou, na ultima sexta-feira, dia 14, um espetáculo de simpatia, gentileza e carinho recíprocos entre um artista e o público porto-alegrense.

As informações técnicas sobre a duração do show eram claras: uma hora. A duração que serviria para deixar profundamente insatisfeito qualquer fã que comprasse um ingresso, não fez diferença aqui. Todos estavam cientes de que trata-se de uma lenda que permanece nos palcos e na estrada aos 83 anos. Trata-se da mais velha lenda vida do Rock and Roll. E ele veio a Porto Alegre.

O show começou pontualmente as 21h com “Roll Over Beethoven”, em um andamento um pouco reduzido, bem blueseiro, que facilitou a performance de Chuck Berry na guitarra. Um pequeno grupo mais exaltado acompanhou a música de pé, cantando junto. Chuck gentilmente pediu: “Por favor, sentem-se. Vou entretê-los essa noite!”. Na seqüência, “School Days”, arrancou aplausos. Aqui o primeiro sinal mais claro das conseqüências da idade: Chuck esquece a letra. Ninguém se importa. O carinho, a admiração e o respeito mútuos que reinavam no Teatro do Bourbon Country fizeram com que isso não tivesse relevância alguma. “Sweet Little Sixteen” levantou o público do Teatro, removendo as pessoas dos assentos. Leia mais

« Página anteriorPróxima página »