Sissy: Da Banalização
outubro 5, 2010
Categoria POA em Cena

Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César: A Nau Frágil
setembro 15, 2010
Categoria POA em Cena

As mulheres e as crianças são as primeiras que /desistem de afundar navios. Essas duas linhas que compõem o poema Cartilha da Cura – curtas pela extensão, intensas pelos significados – foram o meu primeiro contato com o lirismo intempestivo, por vezes nebuloso, mas sempre vivo, feroz e voraz de Ana Cristina César. Interessado em saber mais sobre a mulher que, com mínimos recursos, tangia a mais densa profundidade, desvendando a tensão por detrás das convenientes máscaras que delimitam a selvageria da vida em quadros aceitáveis; procurei relatos biográficos e descobri que Ana Cristina havia sido uma mulher misteriosa, bela e erudita, que cometera suicídio aos 31 anos de idade no início da década de 1980. É claro que a personalidade literária e pessoal da escritora não se restringem a estes rótulos rasos, mas estes oferecem algumas pistas, indícios, rastros da trajetória de um dos expoentes da chamada geração mimeógrafo (ou poesia marginal) . Leia mais
Happy Days: dois olhares sobre os dias felizes
setembro 13, 2010
Categoria POA em Cena
Uma longa jornada que, quase, cumpre o que promete.
Uma das maiores promessas deste 17° Porto Alegre em cena foi a montagem de “Happy Days”, texto de um dos mais revolucionários teatrólogos do século XX, Samuel Becket. Dirigido por Bob Wilson, um dos maiores diretores do teatro mundial, e contando no elenco com nada menos que Adriana Asti (musa de vários diretores do cinema europeu, como Bertoluci e Bunüel), era promessa de um grande espetáculo.
A peça conta com um cenário quase minimalista, a não ser pelos efeitos visuais de luzes, que têm uma grande importância no decorrer da peça, nos informando o quanto de tempo se passou durante o monólogo da personagem Winnie. Esta por sua vez se encontra em uma situação insólita: enterrada até a cintura, no alto de um cume de areia. Ali ela acorda, durante vários dias, e discorre sobre a sua vida, desde os aspectos mais banais, como escovar os dentes e pentear os cabelos, até os seus desejos e frustrações mais profundas, sempre dirigidas ao seu interlocutor, Willie.
Por ser praticamente um monólogo e ter quase duas horas de duração, a peça, em alguns momentos, se torna cansativa, ainda mais para quem não está muito familiarizado ao tipo de texto que Becket escrevia, e as leituras que Wilson dá para suas montagens, sempre abusando de luzes e sons.
O texto é uma ironia dramática, a começar pelo título “Happy Days” (dias felizes), que de felizes não tem nada. Trata de desconstruir uma ilusão de alegria, e sua respectiva necessidade imperativa. Winnie lembra seu passado e o confronta com sua situação atual, tentando achar uma possível felicidade escondida nas coisas mais simplórias, como um simples som, qualquer que seja, emitido por seu marido Willie e que a faça se sentir menos sozinha, pois este é o seu maior medo: a solidão.
A profundidade da reflexão acaba sendo diluída na montagem de Wilson. A tradução também peca na qualidade, principalmente nos trechos onde as frases são mais rápidas. O diretor parece explorar demais o seu objeto cênico e esquece de se preocupar com o texto. Falta certa homogeneidade ao decorrer da peça, algo que prenda o espectador do início ao fim, não só em pontos chaves, aqueles em que o diretor parece dizer: “preste atenção agora!”.
No geral, vale à pena, mas um gostinho de “ficou a desejar” é praticamente certo.
Por: Angelo Borba.
Unfortunate Days, Dias Desventurados
Me sentia aquela velhinha semi-surda da última fileira, esticando o pescoço e aguçando os ouvidos a fim de absorver o máximo de "Happy Days", a peça de Robert Wilson que veio para o 17° Porto Alegre Em Cena. A comparação com uma velhinha da última fileira podia muito bem ir perdendo a força ao passo que os minutos corriam, mas não foi bem assim. A atriz italiana Adriana Asti (Winnie), um ponto pálido – engessado – com a boca carmim e a roupa veludosa azul, surgia aos meus olhos como uma figura distante e ofuscada.
Com a premissa básica de que a personagem do irlandês Samuel Beckett, Winnie, encontra-se soterrada até a cintura, podendo gesticular apenas a parte superior; minha gana era a de visualizar claramente a expressão facial da atriz. De que outra forma captaria sua emoção? Solucionei minha pergunta concentrando-me na verborragia – de teor paradoxalmente humanista e confessional – de Winnie e suas devidas entonações. E, é claro, à famosa iluminação de Bob Wilson, que, discordando de Luiz Paulo Vasconcellos, achei-a sutil e adequada (dispensarei o adjetivo precisa, porque a precisão é um dos pilares do diretor, como bem pude conferir ano passado, em "Quartett"). E não ácida, agressiva, desesperadora, espécie de tábua de salvação; não, aqui a luz é muito menos densa ou fria do que em "Quartet". São tons de azul, amarelo e verde que preenchem todo o alvíssimo fundo. Mesmo que a luz fosse ácida, portanto corrosiva, não há nada que a terra, esse velho extintor, não apague; como bem disse Winnie ao ver seu guarda-chuva negro pegando fogo. O ocorrido provocou tal estrondo a ponto de estremecer a plateia, antes tranquila. O mesmo acontece no início dos dois atos (a peça possui intervalo): uma cortina transparente – branca – balança ao som da brisa que vai aos poucos se fortalecendo, até o som atingir seu ápice, tornar-se grave e ensurdecedor. É aí que, cortina, brisa, luz e som… Caem. FOTO: o vulcão em erupção, o iceberg, o Everest, o vazio. Se Winnie é erupção, suas palavras são lavas que escorrem. Definitivamente Wilson sabe jogar com atmosferas de oposição, nos causando aquela sensação dupla de surpresa e (des)conforto.
Happy Days é sarcasmo, a protagonista não tem dias felizes, senão a esperança de um dia feliz. "- Hoje será um dia feliz!", informa otimista ao seu marido Willie (Giovanni Battista Storti). Ela exige ser ouvida, admitindo sua tendência centralizadora, portanto egocêntrica, perante a situação em que ela e o homem se encontram: debaixo da terra. Entretanto, a fala do outro (de Willie) é baseada em grunhidos, arrotos e peidos. Então é coerente dizer que existe comunicação através da palavra? Francesa é a língua falada na peça, apesar do diretor ser norte-americano e o elenco italiano. Provavelmente Beckett via no francês uma língua nova, fresca, cheia de possibilidades, sem imposições culturais de peso, consequentemente com maior gama de nuances se posta em comparação com o inglês. Ao largar sua língua materna, Samuel Beckett renuncia (em parte) aos códigos que organizam / ordenam a sociedade, porque a língua nada mais é do que uma estrutura de códigos firmados social e historicamente de forma arbitrária. Uma montanha podia muito bem ser chamada de berinjela, não?
Winnie ocupa sua boca com palavras a qualquer momento para não ter que enfrentar o vazio, esse eterno perseguidor. Seu jorro verbal é antagônico ao silêncio. O verbo representa o domínio humano sobre o mundo, é uma apropriação ou mesmo domesticação do vivo e morto, tornando "conhecido" o desconhecido. Beckett estava ciente dessa visão unidimensional, portanto não aceitou-a em sua obra, questionando até mesmo os códigos artísticos de representação da vida.
O elemento absurdo está presente até o fechar das cortinas, o cotidiano do casal jamais é alterado pela condição de estarem enterrados, cada um faz o seu papel: Willie lê jornal e admira fotos de mulheres quase peladas, Winnie escova os dentes, faz as unhas, passa maquiagem, ameaça sua cabeça com um revólver e fala. A respeito da cena inicial, na hora vi uma palhaça escovando os dentes! Era a escova vítima cintilante e o creme dental carrasco, amei! Adriana Asti joga maravilhosamente bem com a voz (e que bom!). Saí do Theatro São Pedro pensando: ao longo de seus dias, Winnie destina o próprio destino. Controla. Tenta bloquear a melancolia, mas esta faz parte da vida. Bloquear a melancolia gera mais mal-estar, talvez melhor aceitá-la.
No segundo ato, Winnie está soterrada até o pescoço. Agora o revólver é inútil e a morte, útil. Peça em francês no território brasileiro exige tradução. Eis que esta é também precisa, ainda mais para as girafas ou para as cuícas. Ah, o meu pescoço é de alguns centímetros, por isso tinha horas em que ficava apenas lendo as legendas e ouvindo Winnie. Não me intimido ao partilhar a vocês que nesses momentos preferia estar lendo a obra impressa, seja na grama, no trem ou minha cama. Lanço dois questionamentos e uma conclusão: em que medida as luzes e as cores traduzem o estado interior da personagem? Até que ponto auxiliam na ambientação das narrativas, dos flashbacks? A estética de Happy Days, ilustre e contemporânea, acomete, enrijece o texto dramático.
E agora, Willie?
E agora, Willie?
E agora, Willie?
Por: Guilherme Nervo
Porto Alegre em Cena – Luisa se Estrella Contra su Casa
setembro 29, 2009
Categoria POA em Cena, Reviews
Trata-se de uma das peças que eu mais tive receio de assistir. Talvez por ter formado pré-concepções ou quem sabe devido ao meu espanhol, que não existe. O público da última apresentação, no domingo (20/09), era consideravelmente grande; entretanto, meu receio permanecia. Já no Museu do Trabalho, me sentei e esperei as luzes, que logo vieram. No interior da grande casa de papelão (que ia desde Seven Boys à Rasip) ouvia-se uma voz feminina estridente. Não somente a casa era de papelão, mas também a árvore e o restante do cenário. O objetivo era simbolizar a fragilidade do lar – e da vida – de Luisa. Eis que um aspirador de pó ambulante (dei-me conta disso apenas no fim da peça) cruza o palco com sua movimentação moderada e calculada arrancando gargalhadas da platéia, que certamente apreciou a ousadia “nonsense” do personagem com cabeça de lata, o inocente Odex. Se ainda tinha alguma ponta de receio, a mesma foi exterminada quando surgiu uma figura histriônica usando saia comprida, peruca negra e sapatos gigantescos. Luisa: a palhaça sonhadora, a argentina desvairada que conquistou o público na hora. Leia mais
Porto Alegre Em Cena – Quartett
setembro 28, 2009
Categoria POA em Cena, Reviews
O espetáculo francês “Quartett”, atração que encerrou a 16ª edição do Porto Alegre Em Cena, não teve simplesmente quase duas horas de duração, mas aproximadamente um ano. A montagem teve início na verdade há alguns meses atrás, quando a peça foi confirmada como sendo uma das atrações para a programação do festival desse ano. Pelo simples fato de reunir três reverenciados nomes da arte contemporânea (Heiner Müller, Bob Wilson e Isabelle Huppert), os ânimos de todos os apreciadores de performances de vanguarda estavam exaltados para a apresentação.
Quartett trouxe ao público gaúcho finalmente a oportunidade de assistir a uma obra assinada por Bob Wilson, diretor que também trabalha como coreógrafo, iluminador e sonoplasta. Wilson é conhecido por seus trabalhos em colaboração com Philip Glass em “Einstein on the Beach”, assim como com o poeta Allen Ginsberg e os músicos Tom Waits e David Byrne. Suas peças são respeitadas nos palcos do mundo inteiro como experiências inovadoras e de vanguarda. Além disso, o espetáculo trazia a beleza e talento da atriz francesa Isabelle Huppert, vencedora do prêmio de melhor atriz nos festivais de cinema de Berlim (2002), Cannes (1978 e 2001) e Veneza (1988 e 1995). Huppert é mais conhecida do público brasileiro por seus atormentados personagens no cinema, como a protagonista de “Madame Bovary” (1991) e “A Professora de Piano” (2001). A montagem de Quarttet foi feita sob encomenda do Odeon Théâtre de l’Europe, um dos mais importantes de Paris, onde fez temporada em 2006 e 2007.
Quartett é uma adaptação do dramaturgo alemão Heiner Müller ao romance de Choderlos de Laclos, “As Relações Perigosas”, obra que recebeu cinco adaptações para o cinema, entre elas a célebre versão de Stephen Frears, que conduziu as incríveis atuações de Glenn Close e John Malkovich em “Dangerous Liaisons” (1988). O texto foi encenado recentemente nos palcos brasileiros por Beth Goulart e Guilherme Leme. Leia mais



