a ‘comunidade imaginada’ estava no Castelão

Sampaio Corrêa x Botafogo-PB: Belo vence, com gol de Wendel Lomar, na segunda etapa. Ronald Felipe/Sampaio Corrêa FC

É difícil explicar o futebol e a paixão que o cerca.

Não é impossível, como alguns costumam romantizar, mas é difícil, como já disse, porque futebol e paixão não podem ser explicados por aspectos exclusivamente objetivos.

Necessárias reflexões sobre subjetividade, localismo, formação de identidades, proxemia, rituais coletivos, festa, emoção, alteridade, rivalidade precisam ser consideradas ao analisar a questão.

Não é uma conta simples, pois. E não pode ser pensada apenas sob a ótica do jogo, das regras, do estádio, do placar, da arquibancada, dos 90 minutos de bola rolando, de uma observação passiva e inalterada dos lances que se seguem minuto após minuto até o apito final.

Em resumo, é fundamental antes de mais nada ampliar a dimensão do que se entende sobre futebol. Acima de tudo, deixar claro que não é apenas lazer, jamais será apenas diversão. Aliás, o mais tolo dos resumos é dizer que o futebol se resume a mero passatempo.

O torcer, tal como o futebol, é a própria vida, em seu inapelável fluxo contínuo, incapaz de ser contido, domado, parado, mas absolutamente possível de ter seu curso alterado. O torcer, pois, é voz ativa, agente de transformação, partícipe, corresponsável por uma dinâmica que é muito mais alargada do que muitos gostam de supor.

Não é algo matemático, mas sensorial. Não é algo inato, mas construído e transformado a cada nova experiência. E que dialoga muito fortemente com a ideia de memória, afeto, pertença.

É a consciência simbólica de fazer parte de uma “comunidade imaginada” (tal como pensada pelo historiador anglo-irlandês Benedict Anderson), que faz cada torcedor se sentir parte de algo maior. De uma comunidade repleta de diferenças, afastamentos e conflitos, não restam dúvidas, mas que ainda assim se reconhecerá em certos momentos, principalmente quando diante de um “outro” que se pretende vencer.

E se reconhecerá a partir das cores, dos símbolos, dos cânticos, das vestes, das faixas, dos gestos. Eu não preciso conhecer tal torcedor para entendê-lo, reconhecê-lo como parte de mim. Essa é a magia que cerca a ideia de “comunidade imaginada”.

Pois tudo isso eu consegui enxergar neste sábado (25), no Estádio Castelão, em São Luís, numa noite em que o Botafogo-PB venceu o Sampaio Corrêa por 1 a 0.

Em termos práticos, a vitória fora de casa coloca o Belo, ainda invicto, na vice-liderança da competição, com chances de assumir a ponta da tabela no dia 3 de junho, quando enfrenta no Estádio Almeidão o líder de momento, o Athletic.

Mas, acho, o leitor já percebeu que não é bem sobre isso o que eu estou falando aqui.

Estou falando sobre o torcer e sobre tudo o mais que cerca o futebol. Sobre subverter uma lógica espacial e temporal que tentam nos impor. Sobre espraiar as sensações que o torcer pode provocar.

Estou falando, ademais, sobre uma cena aparentemente prosaica do jogo deste sábado (25), quando a transmissão da partida mostrou o “solitário” torcedor Diego Lima nas arquibancadas do Castelão, empurrando o Belo em direção de sua quarta vitória na competição.

Diego Lima e a “comunidade imaginada” em torno do Belo. Arquivo Pessoal/Diego Lima

Confirmando o que venho sugerindo aqui, é uma cena que subverte a lógica. Afinal, não é plausível imaginar um torcedor sair sozinho de casa, viajar mais de 1.200 km, assistir a um jogo de futebol, voltar logo em seguida ao lar.

Sob a ótica do torcer, contudo, isso faz todo o sentido. Invoca emoções, produz memórias, cria afetos, provoca o orgulho torcedor de poder dizer que “estava lá”.

Ainda assim, o que me fez escrever sobre esse tema não foi a imagem em si do torcedor solitário na arquibancada, mas a mensagem que ele postou nas redes sociais pouco antes do partida:

Hoje eu vim sozinho, mas com muitos amigos no coração.

Diego Lima – torcedor do Belo

Não estava sozinho, pois.

Ao vestir a camisa, ao empunhar a bandeira, ao se permitir ser visto no estádio do rival vestido de Botafogo-PB, já não era apenas um. Era, acima de tudo, coletividade, “comunidade imaginada”, a própria cidade. Que, com toda a sua heterogeneidade, estava lá representada em um.

Todos juntos, torcendo, empurrando, se arrepiando com mais uma vitória do Belo na Série C.

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