Palestra de Andréia Sadi é retrato lúcido da cena política de um Brasil cindido

Foto/Divulgação.

Andréia Sadi esteve em João Pessoa na última sexta-feira, 07 de junho. Participou de um evento da Rede Paraíba de Comunicação. A palestra da jornalista da GloboNews teve como mote a eleição municipal de outubro que vem, mas a fala de Sadi foi muito mais do que isso. Destaco alguns pontos.

Não existe saída fora da política foi um dos argumentos defendidos por Andréia Sadi. Ela está certíssima. Sempre, porém, que me vejo diante da defesa dessa tese, costumo lançar mão de um argumento poético para justificar o meu pessimismo: “Delfim, Margaret Thatcher, Menachem Begin/Política é o fim” – é Caetano Veloso numa canção do início da década de 1980.

OK. Tanto não existe saída fora da política quanto não vislumbramos boas saídas num país cindido como o Brasil dessa terceira década do século XXI. E não adianta vilanizar o parlamento – outra tese defendida por Sadi. Os deputados e senadores que estão em Brasília ali chegaram legitimamente, chancelados pelo voto popular e só deixarão a Câmara e o Senado se não forem reeleitos.

O presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro são as duas maiores lideranças políticas do Brasil de hoje. Sadi mencionou esse fato, e é impressionante que ele tenha se tornado tão verdadeiro quanto natural. A liderança de Lula, sabemos dela há muito tempo. Mas Bolsonaro é fenômeno recente, e é triste constatar que, sendo quem ele é, tenha conquistado a dimensão que conquistou.

Em sua fala de 60 minutos, fluente, lúcida e, como disse nosso colega Laerte Cerqueira, “sem ponto de corte”, Andréia Sadi começou por polarização. Sem a sua admissão, atualmente não é possível discutir política no Brasil. Lulismo de um lado, bolsonarismo do outro, quando – pergunto eu – superaremos esses “ismos” para retomarmos de forma decente o nosso processo civilizatório?

Andréia Sadi ama o jornalismo político e dele não se desconecta. De uma fonte próxima ao presidente Lula, ouviu que o governo é marcado pelo improviso. Na piscina do Alvorada, o Lula III carece da presença dos “companheiros” dos governos I e II. Os problemas – disse Sadi – não são resolvidos dentro, como eram no passado, mas são levados para fora. Aí, palavras minhas, temos Rui Costa fritando Fernando Haddad.

A esquerda tem, ingenuamente, subestimado a extrema direita. Em 2018, a esquerda não enxergou o crescimento de Bolsonaro nem o risco que ele representava. Deu no que deu. A extrema direita está se articulando muito bem para a disputa presidencial de 2026. Sadi chamou a atenção para a real dimensão do ato em defesa de Bolsonaro realizado em fevereiro último na Avenida Paulista.

Os petistas tentaram minimizar, mas 200 mil pessoas é muita gente em qualquer lugar do mundo. Não é o PIB que vai reeleger Lula, mas talvez os preços dos alimentos o derrotem. O Lula III é um governo analógico, a extrema direita não é. Em sua palestra, Andréia Sadi jogou muitos tópicos para as reflexões de quem foi vê-la de perto. Sadi pertence à linhagem do melhor jornalismo político brasileiro. Ela engrandece seu ofício.

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